Alagoas envelhece antes de enriquecer: estado enfrenta fim do bônus demográfico com baixa qualificação
Dados do Censo 2022 mostram que idade mediana saltou de 25 para 32 anos em 12 anos; população deve começar a reduzir a partir de 2027
Publicado em
Alagoas está envelhecendo em ritmo acelerado e enfrenta um desafio crucial: a população economicamente ativa começa a diminuir antes que o estado tenha conseguido se desenvolver plenamente. Dados do Censo Demográfico 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que a idade mediana dos alagoanos – indicador que divide a população entre a metade mais jovem e a mais idosa – saltou de 25 anos em 2010 para 32 anos em 2022.
O fenômeno não é isolado. Em todo o país, a idade mediana passou de 29 para 35 anos no mesmo período, o maior salto de envelhecimento entre dois censos da história . No Nordeste, o indicador subiu de 27 para 33 anos.
Transformação na pirâmide etária
O envelhecimento populacional fica ainda mais evidente quando se analisa a composição por faixas etárias. Em Alagoas, o percentual de crianças de 0 a 14 anos caiu para 22,8% da população total em 2022. Em 2010, esse grupo representava 29,2%; em 1980, chegava a impressionantes 44,8%.
No sentido oposto, a participação dos idosos cresce continuamente. Em 2022, o estado registrou 39,3 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças.
Queda da fecundidade
A redução do número médio de filhos por mulher é o principal motor dessa transformação. Em 1980, a taxa de fecundidade em Alagoas era de 6,7 filhos por mulher. Em 2010, caiu para 3,12. As projeções para 2022 estimavam uma taxa de apenas 1,74 filho por mulher – abaixo do nível de reposição populacional.
Essa queda reflete mudanças sociais profundas, como a urbanização, o aumento da escolaridade feminina e o maior acesso a métodos contraceptivos.
O desafio do capital humano
O envelhecimento ocorre em um contexto de limitações estruturais na qualificação da força de trabalho. O baixo nível de capital humano – que avalia a educação da população, a inserção no mercado de trabalho e os impactos na produtividade – é apontado como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento.
No ranking nacional de capital humano, Alagoas ocupa apenas a 21ª posição entre as 27 unidades da federação. No quesito inserção econômica dos jovens, o estado amarga o penúltimo lugar do país.
O fim do bônus demográfico
O chamado "bônus demográfico" é o período em que a maior parcela da população está em idade ativa (entre 15 e 64 anos), reduzindo a proporção de dependentes (crianças e idosos). Esse fenômeno, que ocorre principalmente pela queda da fecundidade, representa uma janela de oportunidade para o crescimento econômico.
Estimativas do IBGE indicam que 2026 pode ser o último ano de crescimento populacional em Alagoas. As projeções apontam para o início da redução da população a partir de 2027 – ou seja, o estado está vivendo o auge e, ao mesmo tempo, o encerramento de seu bônus demográfico.
O problema é que Alagoas não aproveitou plenamente essa janela. Apesar do crescimento da renda per capita nas últimas décadas, cerca de metade da população ainda depende de transferências federais, como o Bolsa Família.
Com o esgotamento do bônus demográfico e o envelhecimento acelerado, o estado precisará promover ajustes estruturais urgentes para lidar com uma sociedade progressivamente mais idosa e com menor proporção de jovens – um desafio e tanto para as políticas públicas nas próximas décadas.