Operação Lamaçal: PF prende ex-prefeito de Lajeado por suspeita de desviar R$ 120 milhões da enchente no RS
Marcelo Caumo é alvo de prisão temporária na segunda fase da operação que investiga fraudes em licitações emergenciais após tragédia de maio de 2024
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A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quinta-feira (26) a segunda fase da Operação Lamaçal, com o objetivo de aprofundar as investigações sobre o desvio de recursos federais destinados ao município de Lajeado, no Rio Grande do Sul, após as devastadoras enchentes de maio de 2024. O principal alvo da ação é o ex-prefeito Marcelo Caumo, que teve a prisão temporária decretada pela Justiça.
Agentes da PF cumprem 20 mandados de busca e apreensão e duas prisões temporárias em oito cidades gaúchas, incluindo Lajeado, Muçum, Encantado, Garibaldi, Salvador do Sul, Fazenda Vilanova, Novo Hamburgo e Porto Alegre. A Justiça determinou ainda o sequestro de veículos e o bloqueio de ativos financeiros dos investigados, com valores que podem chegar a R$ 5 milhões.
Caumo foi detido em sua residência por agentes federais. A prisão temporária tem prazo inicial de cinco dias, podendo ser prorrogada por igual período. Além dele, uma empresária ligada à empresa beneficiada pelos contratos suspeitos também foi presa, e uma vereadora de Encantado foi afastada do cargo por decisão judicial.
A investigação apura irregularidades em três licitações realizadas pela Prefeitura de Lajeado durante a gestão de Caumo, que estava à frente do município quando as enchentes atingiram a região. Com a justificativa de calamidade pública, a administração municipal dispensou o processo licitatório regular e contratou diretamente uma empresa para prestar serviços terceirizados na área de assistência social.
Os serviços contratados incluíam profissionais como psicólogos, assistentes sociais, educadores sociais, auxiliares administrativos e motoristas – funções essenciais para atender a população desabrigada pela tragédia. O montante total dos contratos sob análise chega a cerca de R$ 120 milhões, recursos oriundos do Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS).
Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), há indícios de que:
- A contratação não observou a proposta mais vantajosa para a administração pública
- Os valores pagos estariam acima do preço de mercado
- As empresas contratadas pertencem a um mesmo grupo econômico, sugerindo direcionamento
Esta não é a primeira vez que Marcelo Caumo é alvo da Operação Lamaçal. Na primeira fase, deflagrada em novembro de 2025, a PF e a CGU cumpriram 35 mandados de busca e apreensão em nove cidades gaúchas, além de sequestrar 10 veículos e bloquear R$ 4,5 milhões em ativos. Na ocasião, Caumo era secretário estadual de Desenvolvimento Urbano e deixou o cargo dois dias após a operação.
A análise do material apreendido na primeira fase reforçou as suspeitas. Um dos achados mais significativos foi a localização de R$ 411 mil em dinheiro vivo guardados em um cofre no escritório de advocacia do qual Caumo foi sócio. A origem dos valores está sob investigação.
A CGU também identificou que o ex-prefeito atuou como advogado de uma das empresas investigadas antes de assumir a prefeitura, o que levanta suspeitas de conflito de interesses e favorecimento nas contratações emergenciais.
Os investigados poderão responder por um conjunto de crimes, incluindo:
- Desvio ou aplicação indevida de verba pública
- Contratação direta ilegal
- Fraude em licitação ou em contrato
- Corrupção passiva e ativa
- Associação criminosa
- Lavagem de dinheiro
A PF destaca que o desvio de recursos destinados ao atendimento emergencial da população afetada pelas enchentes representa uma dupla violação: além do prejuízo aos cofres públicos, comprometeu as políticas de acolhimento às vítimas da tragédia climática.
Em nota divulgada anteriormente, Caumo afirmou estar à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos. "Confio plenamente na Justiça e possuo a convicção de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos. No período em que estive à frente da administração municipal, sempre pautei minhas ações pela transparência, pela responsabilidade com o dinheiro público e pelo respeito às leis", declarou, acrescentando que os recursos apreendidos no escritório "não têm qualquer relação com o objeto da investigação".
A Prefeitura de Lajeado, atualmente sob nova gestão, informou que "colabora integralmente com as autoridades, fornecendo todas as informações solicitadas e adotará as medidas cabíveis diante de eventuais irregularidades", ressaltando que os contratos investigados são de administrações anteriores.
O governo do Rio Grande do Sul reiterou que a investigação "não tem qualquer relação com a atuação de Marcelo Caumo enquanto secretário de Estado", mas afirmou estar à disposição para auxiliar nas apurações.
A operação segue em andamento, com análise do material apreendido para identificar outros possíveis envolvidos e o destino dos recursos desviados.