Fraude no INSS: 70% das entidades que faziam descontos na aposentadoria pagavam lobistas investigados, revelam documentos
Papéis internos do instituto mostram que 27 das 40 associações com Acordos de Cooperação Técnica estavam ligadas a operadores do esquema bilionário, incluindo o "Careca do INSS"
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Documentos internos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) obtidos pelo portal Metrópoles revelam a extensão do esquema de fraudes contra aposentados: 70% das entidades que firmaram Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) para descontar mensalidades diretamente dos benefícios pagaram operadores investigados pela Polícia Federal (PF) e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Dos 40 acordos firmados ou renovados desde os anos 2000, 27 evidenciam a contratação de empresas pertencentes aos próprios dirigentes das entidades, firmas suspeitas de assinaturas fraudulentas e procurações para lobistas do esquema.
O número de 27 entidades envolvidas é praticamente o dobro daquelas que foram alvo da Operação Sem Desconto, deflagrada em abril com base em reportagens. Os documentos mostram que o INSS não acionou alertas mesmo em casos onde várias associações eram representadas pelo mesmo lobista, ou quando foram apresentadas fichas de biometria com fotos idênticas às dos RGs dos aposentados, indicando falsificação.
A figura central do esquema, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", aparece de forma proeminente. Em sete processos para firmar acordos, entidades anexaram e-mails, procurações e pedidos assinados por ele. Um dos casos mais emblemáticos envolve uma procuração assinada pela faxineira Maria Inês Batista de Almeida, ex-presidente da Ambec – entidade que faturou R$ 500 milhões com os descontos. À CPMI do INSS, Antunes admitiu nunca ter tido contato com os dirigentes de entidades como a Ambec, lidando apenas com o empresário Maurício Camisotti, apontado pela PF como o beneficiário final do esquema e que foi preso no mês passado.
Além do "Careca", outras operadoras-chave são citadas. A advogada Cecília Rodrigues Motta, cujo escritório recebeu R$ 14 milhões de associações investigadas, aparece em documentos de entidades como a Cenap Asa e a Keeper. Ela é acusada de fazer repasses de R$ 520 mil para Éric Fidelis, filho do ex-diretor de Benefícios do INSS André Fidelis, e de pagar R$ 630 mil a empresas ligadas à esposa do ex-procurador-geral do instituto, Virgilio de Oliveira Filho.
Os documentos também expõem a sofisticação das fraudes. Oito entidades que lucraram R$ 1,4 bilhão contrataram serviços da Power Bi Tech, empresa do jovem empresário Igor Dias Delecrode, que também foi dirigente de três associações. Sua empresa era responsável por validar assinaturas digitais que, em alguns casos, foram desconsideradas pela Justiça por mostrarem idosos se filiando a centenas de quilômetros de sua residência.