Vídeos de pessoas bebendo detergente Ypê viralizam após decisão da Anvisa e médicos alertam para risco grave à saúde
Consumir produtos de limpeza pode causar intoxicação, queimaduras internas e lesões pulmonares; prática ganhou força nas redes após medida sanitária contra lotes da marca
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Vídeos de pessoas ingerindo detergente e outros produtos de limpeza da marca Ypê passaram a circular nas redes sociais nos últimos dias após uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) envolvendo itens fabricados pela empresa. A prática, usada por alguns usuários como forma de protesto, acendeu um alerta entre especialistas em saúde devido ao risco de intoxicação e danos graves ao organismo.
A repercussão começou após a Anvisa determinar, no último dia 7 de maio, o recolhimento de produtos da fabricante Química Amparo, responsável pela marca Ypê. A medida suspendeu a fabricação, comercialização, distribuição e uso de determinados lotes de lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes identificados com final 1.
Segundo a agência reguladora, foram identificadas falhas no processo produtivo, incluindo problemas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle sanitário, além de risco potencial de contaminação microbiológica.
No entanto, a empresa apresentou recurso administrativo, o que suspendeu automaticamente os efeitos da decisão. A Ypê afirma que apenas os produtos dos lotes específicos seriam afetados e que os demais itens seguem liberados para comercialização.
Apesar disso, a Anvisa mantém o alerta sanitário e recomenda que consumidores evitem utilizar os produtos inicialmente incluídos na medida até nova avaliação.
Vídeos viraram protesto político nas redes
A decisão da Anvisa rapidamente ganhou contornos políticos nas redes sociais. Perfis ligados a grupos de direita passaram a questionar a medida, sugerindo uma possível perseguição à empresa e incentivando manifestações de apoio à marca.
Em alguns vídeos, usuários aparecem tomando banho com detergente, ingerindo pequenas quantidades do produto ou simulando o consumo diretamente da embalagem como forma de protesto.
Especialistas, no entanto, alertam que a prática representa risco real à saúde, independentemente da quantidade ingerida.
Segundo a toxicologista Andréia Miranda, gerente toxicológica da DB Diagnósticos, até pequenas doses podem causar irritação importante em mucosas da boca, garganta, esôfago e estômago.
“Mesmo em pequenas quantidades, produtos de limpeza podem causar irritação importante em mucosas da boca, garganta, esôfago e estômago, levando a sintomas como náuseas, vômitos, dor abdominal, ardência, tosse e engasgos”, explica.
Lesão pulmonar é uma das maiores preocupações
Entre os principais riscos médicos está a chamada aspiração pulmonar, quando o detergente ou substância química alcança as vias respiratórias após tosse, vômito ou engasgo.
O quadro pode provocar uma pneumonite química, uma inflamação pulmonar potencialmente grave e que exige atendimento médico especializado.
“Em muitos casos de ingestão acidental de detergentes e lava-roupas líquidos, a aspiração pulmonar acaba sendo uma das principais preocupações, especialmente se houver vômitos, tosse intensa ou espuma”, afirma Andréia Miranda.
Especialistas reforçam ainda que não se deve provocar vômito em casos de ingestão de produtos químicos, já que o retorno do líquido pelo esôfago pode agravar lesões e aumentar o risco de o material atingir os pulmões.
Também não são recomendadas receitas caseiras, como ingerir leite, óleo, limão, vinagre ou bicarbonato, já que essas medidas podem piorar o quadro e atrasar o atendimento correto.
Crianças e idosos estão entre os grupos de maior risco
Outro ponto de preocupação é o potencial efeito sobre públicos vulneráveis, especialmente crianças, idosos e pessoas imunossuprimidas.
Além do risco químico, a possível contaminação microbiológica identificada pela Anvisa pode representar ameaça adicional, sobretudo para pessoas com doenças crônicas, baixa imunidade ou feridas abertas.
Especialistas também alertam para o efeito de imitação em crianças pequenas, que podem reproduzir comportamentos vistos nas redes sociais, elevando o risco de intoxicações domésticas.
Entre os sinais de alerta após ingestão estão:
- - vômitos persistentes;
- - dor intensa ou sensação de queimação;
- - tosse forte ou engasgos;
- - chiado no peito;
- - sonolência;
- - dificuldade para respirar.
Em situações de emergência, a orientação é procurar imediatamente atendimento médico ou um centro de intoxicação e evitar qualquer automedicação.