31 de julho de 2025
POLÍTICA

Lula quer cooperação com Trump para prender "magnatas da corrupção" que vivem nos EUA

Em coletiva na Índia, presidente afirma que levará equipe de PF, Receita e Ministério Público para reunião em março com Trump e pedirá extradição de brasileiros foragidos em Miami, citando empresário Ricardo Magro como exemplo

Por Redação
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Donald Trump e Lula. - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (22) que pretende insistir em uma cooperação bilateral com os Estados Unidos para "colocar magnatas da corrupção na cadeia". A declaração foi feita durante coletiva de imprensa em Nova Délhi, ao final de sua viagem oficial à Índia, onde participou da Cúpula de Inteligência Artificial e assinou acordos de cooperação com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

O encontro com o presidente americano Donald Trump está previsto para ocorrer em março, possivelmente na primeira quinzena do mês, em Washington . Segundo Lula, a reunião será uma oportunidade para retomar o diálogo direto entre as duas maiores democracias do Ocidente, após um período de tensões comerciais envolvendo tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros .

"Eu disse ao presidente Trump que estamos dispostos a trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro. Qualquer coisa que puder colocar os magnatas da corrupção na cadeia, nós estamos dispostos a trabalhar", afirmou Lula.

O presidente destacou que "esses magnatas não moram na favela, não moram no terreiro, eles moram em cobertura, moram no bairro mais chique do Brasil e no bairro mais chique dos Estados Unidos".

Lula revelou que pretende levar uma proposta estruturada para a reunião com Trump, envolvendo um mecanismo de cooperação institucional entre os dois países.

"Por isso que vou levar [para a reunião] minha Polícia Federal, ele manda o pessoal da CIA, do FBI, que ele quiser para juntar. Vou levar meu ministro da Justiça, ele coloca o Departamento de Justiça deles. Vou levar meu Ministério Público, ele que leve o dele. Vou levar minha Receita, ele que leva a dela, para a gente colocar um fim nisso" , declarou.

Segundo informações do portal Poder360, a proposta brasileira estabelece mecanismos de compartilhamento de dados financeiros entre os dois países, com foco em lavagem de dinheiro, rastreamento de fluxos ilícitos e apoio a investigações conjuntas.

O presidente afirmou que o Brasil já enviou alguns nomes de criminosos aos EUA e pretende aprofundar o diálogo sobre o assunto durante o encontro com Trump.

Para ilustrar o tipo de cooperação que deseja, Lula citou um caso concreto: o empresário Ricardo Magro, dono do Grupo Refit, que controla a Refinaria de Manguinhos, no Rio de Janeiro.

"Nós bloqueamos 250 milhões de litros de gasolina em cinco navios, entregamos para Petrobras, essa pessoa mora em Miami, nós mandamos para o presidente Trump a fotografia da casa dele, o nome dele, e nós queremos essa pessoa no Brasil. É para combater o crime organizado? Então nos entregue os nossos bandidos" , afirmou Lula.

Quem é Ricardo Magro?

Ricardo Magro, de 51 anos, é advogado e empresário, à frente do Grupo Refit, dono da Refinaria de Manguinhos. Paulistano, ganhou projeção no Rio de Janeiro e, desde 2016, vive em uma área nobre de Miami, nos Estados Unidos . Formado em Direito pela Universidade Paulista (Unip), com pós-graduação em direito tributário, Magro comanda o grupo desde 2008.

O Grupo Refit foi alvo da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 com 1,4 mil agentes, que investigou a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis . A operação apontou indícios de sonegação bilionária e relações com facções criminosas.

Segundo a Receita Federal, o grupo é considerado o maior devedor de impostos do país, com uma dívida que ultrapassa R$ 26 bilhões . No site da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, a Refinaria de Manguinhos aparece com uma dívida de R$ 11,5 bilhões. No estado de São Paulo, é a maior devedora, com pendência de R$ 9,5 bilhões.

O empresário já apareceu na lista dos brasileiros que mantêm offshores em paraísos fiscais e foi alvo de outras investigações da Polícia Federal, incluindo a Operação Recomeço, em 2016, que apurou desvio de recursos de fundos de pensão. Na ocasião, Magro chegou a ser preso por suspeita de lesar o fundo de pensão Postalis, mas depois foi inocentado pela Justiça.

A versão do empresário

Em entrevista ao site Brasilagro em setembro de 2025, Ricardo Magro negou qualquer associação com o PCC e afirmou ser vítima de perseguição.

Segundo ele, a Refit não foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, mas apareceu nos documentos citada como sucessora de uma empresa já abatida pelas autoridades, a Copape, que seria um braço do esquema do PCC. Magro afirma que foi ele próprio quem denunciou as práticas criminosas no setor às autoridades.

"Sou perseguido. Sofro ameaça do PCC e de seus apoiadores, porque atuo para combatê-los no setor, e sou difamado por grandes empresas formais" , declarou à época.

O empresário também foi ex-advogado do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-RJ)  e, apesar do passado ligado à esquerda, hoje é associado à direita por sua proximidade com o senador Ciro Nogueira (Progressistas) e políticos do PL, especialmente no Rio de Janeiro.

Apesar do tom enfático do presidente, a área técnica do governo brasileiro avalia que o pedido de extradição pode enfrentar obstáculos nos Estados Unidos. Segundo o jornal Valor Econômico, a prática usual dos EUA não é favorável à extradição de seus residentes, especialmente quando se trata de crimes tributários.

Além disso, a relação bilateral passou por turbulências recentes. Em 2025, Trump impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, gerando tensão diplomática . Após negociações, parte das tarifas foi retirada, e os dois presidentes retomaram o diálogo por telefone, trocando elogios públicos.

Lula também mencionou a forma como foi informado sobre as novas tarifas globais de 15% anunciadas por Trump: "É impensável receber, por meio do Twitter, a determinação de um país de taxar outro. No passado, decisões assim eram tratadas em reuniões entre ministros da Fazenda e da Indústria e Comércio. Hoje, ele faz tudo pelo Twitter" , criticou o presidente .

Ainda assim, Lula se mostrou otimista com o encontro presencial: "Em reuniões pessoais, Trump é muito mais calmo. Dois homens de 80 anos não precisam brigar. Temos que tratar com a seriedade que nossa idade nos impõe".

Além da cooperação no combate ao crime organizado, Lula pretende discutir com Trump a exploração de minerais críticos e terras-raras. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses recursos, indispensáveis para a transição energética, produção de baterias, eletrônicos e expansão da inteligência artificial.

O presidente afirmou que vai levar uma proposta por escrito sobre o tema, mas deixou claro que não aceitará imposições que comprometam a soberania brasileira: "Quero negociar de forma soberana. O processo de transformação desses minerais críticos deve ser feito no nosso país, dentro do nosso país, e não fora".

Ele também descartou acordos de exclusividade com qualquer nação: "Venderemos para quem quisermos. Não aceitamos ter posições impostas".

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