“Fiz tudo para facilitar a vida dela”: coronel disse a desembargador horas após matar esposa
Tenente-coronel Geraldo Neto foi preso na quarta (18) e é o 1º oficial da PM de SP detido por feminicídio desde 2015; perícia aponta que Gisele Alves foi morta e cena foi forjada para simular suicídio
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Cerca de uma hora após atirar contra a própria esposa, na manhã de 18 de fevereiro, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto recebeu em seu apartamento, no Brás, o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, amigo pessoal e magistrado do Tribunal de Justiça de São Paulo. Enquanto Gisele Alves Santana, 32 anos, ainda era socorrida às pressas, o oficial desabafou com o desembargador: “Eu aluguei aqui para facilitar a vida dela”.
A declaração, captada por câmeras de segurança e transcrita pela Polícia Civil, é uma das peças que ajudam a reconstruir as horas seguintes ao crime. No depoimento ao amigo, Geraldo disse que dormia em quarto separado, que a relação estava insustentável e que havia pedido o divórcio naquela manhã. A versão oficial, porém, é a de que a soldado teria se matado após a discussão. A tese do suicídio foi sustentada pelo coronel desde o primeiro momento, mas caiu por terra após 24 laudos periciais e uma investigação de um mês.
As provas que derrubaram a versão do suicídio
A Polícia Técnico-Científica produziu mais de 20 laudos que embasaram o pedido de prisão. Entre os pontos mais contundentes estão:
- Trajetória da bala: o disparo foi feito de baixo para cima, com o cano da arma encostado na cabeça, posição incompatível com um autoextermínio.
- Lesões no pescoço: Gisele tinha marcas de pressão digital e arranhões (estigma ungueal) no rosto e no pescoço, indicando que foi imobilizada e desmaiou antes de ser baleada.
- Sangue no banheiro: exames com luminol detectaram vestígios de sangue de Gisele no box do chuveiro, na bermuda do coronel e em outros cômodos, provando que ele esteve próximo à vítima durante o sangramento ativo.
- Posição da arma: o corpo foi encontrado com a pistola na mão, o que é incomum em suicídios – o mais provável seria que a arma caísse.
- Alcance impossível: a arma ficava guardada sobre um armário de 2,04 metros de altura. Gisele tinha 1,65 m e, mesmo nas pontas dos pés, não alcançaria o local.
Além disso, uma vizinha relatou ter ouvido o tiro às 7h28, mas Geraldo só acionou a polícia às 7h57. Nesse intervalo, ligou para o desembargador. Quando os bombeiros chegaram, ele estava com o corpo seco, embora afirmasse que estava no banho no momento do disparo.
Relacionamento marcado por violência
As investigações também revelaram um histórico de agressões. Treze dias antes da morte, Gisele escreveu ao marido: “Você enfiou a mão na minha cara ontem”. Em outras mensagens, ela reclamava de humilhações, piadas e controle. O coronel dizia, por exemplo, que “lugar de mulher é em casa, cuidando do marido”.
Para a Corregedoria da PM, os diálogos expõem um padrão de violência psicológica e doméstica, com tentativas de controle e desqualificação da autonomia da vítima.
Geraldo Neto foi preso na quarta-feira (18) em São José dos Campos, onde mantinha um apartamento. Com a prisão, tornou-se o primeiro oficial da Polícia Militar de São Paulo detido por feminicídio desde a criação da lei, em 2015. Ele responde por feminicídio e fraude processual.
A defesa do coronel contesta a competência da Justiça Militar para decretar a prisão e afirma que a morte foi suicídio. O caso, no entanto, já foi encaminhado ao Tribunal do Júri, onde sete jurados decidirão sobre a condenação. O corpo de Gisele foi sepultado, mas a Justiça autorizou a exumação para aprofundar os exames.