31 de julho de 2025
SÃO PAULO

Trajetória da bala, lesões no pescoço e cena forjada: como a polícia concluiu que soldado da PM foi vítima de feminicídio em SP

Tenente-coronel Geraldo Leite foi preso nesta quarta (18) após laudos apontarem que Gisele Santana foi imobilizada antes de ser baleada; marido simulou suicídio e tentou apagar provas

Por Redação
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Socorrista diz que desconfiou da forma em que arma estava encaixada na mão de PM encontrada baleada - Foto: Reprodução/TV Globo

A Polícia Civil de São Paulo concluiu o inquérito sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, e apontou o marido dela, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto, como autor do feminicídio. Preso na manhã desta quarta-feira (18) em São José dos Campos, ele foi indiciado também por fraude processual por ter simulado um suicídio e alterado a cena do crime. A decisão foi baseada em um conjunto de laudos da Polícia Técnico-Científica que descartaram a versão apresentada pelo oficial.

De acordo com as investigações, pelo menos dois dos 24 laudos produzidos após a exumação do corpo de Gisele foram decisivos para mudar os rumos do caso. Os peritos identificaram que a vítima foi imobilizada pelo pescoço sem apresentar sinais de defesa, com lesões contundentes na face e na região cervical causadas por pressão digital e marcas de unhas – o que indica que ela pode ter desmaiado antes de ser baleada na cabeça. A trajetória do projétil também não era compatível com um autoextermínio, e a posição do corpo e da arma foi claramente manipulada depois do disparo.

A exumação realizada em 7 de março no IML Central da capital foi fundamental para confirmar as suspeitas iniciais. Os exames mostraram ainda que Gisele não estava grávida e não havia sido dopada, mas que havia manchas de sangue espalhadas por outros cômodos do apartamento, indicando que a dinâmica do crime não ocorreu onde o corpo foi encontrado.

A versão do tenente-coronel começou a ruir logo nos primeiros depoimentos. Uma vizinha afirmou ter ouvido um disparo por volta das 7h28 da manhã do dia 18 de fevereiro – quase meia hora antes da primeira ligação de Geraldo ao serviço de emergência, feita às 7h57. Na chamada, ele já afirmava que a esposa havia se matado com um tiro na cabeça.

Outro ponto que chamou a atenção dos socorristas foi a posição da arma na mão da vítima. Um dos bombeiros que atendeu a ocorrência relatou que o revólver estava "bem encaixado", de uma forma que nunca havia visto em casos de suicídio, e que o cartucho da bala não foi encontrado no local. O profissional, por achar a cena incomum, decidiu fotografá-la antes da chegada da perícia.

Em depoimento, o tenente-coronel afirmou que estava no banho quando ouviu o disparo e que pensou tratar-se de uma porta batendo. No entanto, os bombeiros que chegaram ao apartamento minutos depois relataram que ele estava seco e que não havia pegadas molhadas ou poças de água no chão que indicassem que ele tivesse saído do chuveiro às pressas. O chuveiro do banheiro do corredor estava ligado, mas o ambiente não apresentava sinais de uso recente.

A equipe de resgate também estranhou a frieza do oficial. Segundo os depoimentos, ele não demonstrava desespero, não chorava e não tinha marcas de sangue no corpo que indicassem qualquer tentativa de socorro à esposa. Enquanto aguardava, falava calmamente ao telefone e questionava o atendimento dos bombeiros, insistindo para que a vítima fosse levada rapidamente ao hospital.

Outro fato que intrigou os investigadores foi a presença do desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo, no apartamento logo após o crime. Imagens de câmeras de segurança mostram que o magistrado chegou ao prédio às 9h07 e subiu para o local com o tenente-coronel. O advogado da família de Gisele questionou por que um desembargador foi acionado antes mesmo da polícia ou do resgate. Em nota, o Tribunal de Justiça informou que Cogan foi chamado como amigo pessoal do oficial e que prestará esclarecimentos à polícia se necessário.

Horas após a morte, três policiais militares foram ao apartamento para fazer a limpeza do imóvel. Elas chegaram por volta das 17h48 e permaneceram cerca de 50 minutos no local. O corregedor da PM, coronel Alex dos Reis Asaka, afirmou em coletiva que a limpeza foi uma "questão de humanidade", autorizada pelo comando da área e pelo departamento de psicologia, e que não houve intenção de suprimir provas, já que o local teria sido liberado pela perícia.

No entanto, a investigação aponta que a cena já havia sido manipulada antes mesmo da chegada das equipes de socorro. A decisão da Justiça Militar, que decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, destaca que as provas indicam que Gisele foi surpreendida por trás, com o agressor segurando sua mandíbula enquanto apontava a arma para a têmpora. O corpo teria sido arrastado e posicionado no chão para simular um suicídio.

Geraldo Leite foi levado ao 8º Distrito Policial, na capital, para interrogatório e formalização do indiciamento, e em seguida encaminhado ao Presídio Militar Romão Gomes, onde permanecerá à disposição da Justiça.

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