31 de julho de 2025
POLÍCIA

'Tenho que trocar a minha pele', diz mulher trans marcada com suástica nazista durante tortura em MS

Vítima de 29 anos foi espancada, teve símbolo gravado a ferro quente no braço e passará por cirurgia para remover a marca. Patrões e namorado foram presos preventivamente

Por Redação
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Vítima teve o símbolo nazista marcado com faca quente, em Mato Grosso do Sul - Foto: Reprodução/TV Morena

Uma mulher trans de 29 anos viveu momentos de terror no último sábado (14) em Ponta Porã, a 313 km de Campo Grande (MS). Após ser atraída para uma emboscada na casa dos patrões, onde prestava serviços de limpeza e jardinagem, ela foi agredida brutalmente e teve uma suástica nazista gravada no braço com uma faca aquecida. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Atendimento à Mulher (DAM).

"Eu vi a morte de perto, gritava socorro e ninguém me ouvia", desabafou a vítima em entrevista ao g1. "Vou ter que fazer duas cirurgias na minha cabeça e trocar a minha pele, arrancar essa e colocar outra", disse, referindo-se à necessidade de remover a marca provocada com uma faca quente.

A vítima havia reatado o relacionamento com o ex-namorado Leonardo Duarte, de 22 anos, no mesmo dia do crime. Ele a acompanhou até a casa do casal Jackson Tadeu Vieira (38) e Laysa Carla Leite Machinsky (25), supostamente para que ela recebesse um pagamento por serviços já prestados. Ao chegar ao escritório da residência, a vítima foi surpreendida: foi acusada de ter furtado objetos e teve o celular destruído com uma faca para que não pudesse pedir ajuda.

O que se seguiu foi uma sessão de tortura que durou cerca de uma hora e meia, segundo a polícia. Leonardo a segurou enquanto o casal a agredia com socos, chutes, tapas, golpes com taco de sinuca e cabo de vassoura. Ela chegou a vomitar sangue após ser atingida na cabeça e no estômago. Em determinado momento, Jackson pediu que Laysa esquentasse uma faca e, com o objeto em brasa, gravou uma suástica no braço esquerdo da vítima, próximo ao ombro.

Durante o ataque, um dos agressores encostou uma faca no pescoço da mulher e ameaçou matá-la, dizendo que jogariam o corpo no rodoanel. Antes de libertá-la, os criminosos ainda disseram que cortariam sua cabeça com uma foice se ela contasse o que havia acontecido.

Segundo o auto de prisão, a motivação do crime está ligada a um aborto sofrido por Laysa semanas antes. O casal havia pago à vítima para enterrar o material genético, mas, na data do crime, descobriu que o feto estava armazenado num vidro dentro do escritório. Jackson passou a culpar a mulher pelo aborto e, durante a tortura, a obrigou a cheirar o conteúdo do frasco, cobrando o valor que havia sido pago.

Após ser liberada sob ameaça, a vítima conseguiu chegar até a rodoviária da cidade, onde pediu ajuda e foi orientada a procurar a polícia.

Os três suspeitos foram presos no dia seguinte e tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva pela Justiça. São eles:

  • Jackson Tadeu Vieira, 38 anos, estudante de medicina e filho de um coronel da reserva da Polícia Militar de MS.
  • Laysa Carla Leite Machinsky, 25 anos, também estudante de medicina e companheira de Jackson.
  • Leonardo Duarte, 22 anos, ex-namorado da vítima.

Leonardo confessou ter desferido dois socos na vítima e ajudado a segurá-la. O casal negou participação nas agressões, mas a polícia considera as versões inconsistentes.

A vítima está internada e passará por procedimentos cirúrgicos devido às lesões, além da cirurgia plástica para retirar a marca da suástica. Ela também precisará de acompanhamento psicológico. "Nem tenho tatuagem no corpo e eu sou marcada por uma maldade humana que fizeram comigo", lamentou.

O caso é investigado como tortura e lesão corporal. Em situações de violência, denuncie pelo Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou 190 em caso de emergência.

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