Estudo coloca em xeque uso de aspirina para prevenção do câncer de intestino em idosos
Pesquisa acompanhou mais de 19 mil pessoas por até nove anos e não encontrou redução no risco da doença; durante uso do medicamento, houve aumento na mortalidade por tumores
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O uso contínuo de ácido acetilsalicílico em baixa dose, popularmente conhecido como aspirina ou AAS, não demonstrou benefício na prevenção do câncer colorretal em idosos saudáveis. Essa é a principal conclusão do estudo ASPREE, publicado em janeiro na revista científica Jama Oncology, que acompanhou mais de 19 mil pessoas na Austrália e nos Estados Unidos por até nove anos.
Durante décadas, acreditou-se que a medicação poderia exercer um efeito protetor contra o câncer, especialmente o colorretal. A hipótese ganhou força a partir do início dos anos 2000, quando estudos observacionais sugeriram que pessoas que faziam uso regular do fármaco apresentavam menor risco de desenvolver esse tipo de tumor.
"Essas hipóteses surgiram a partir de estudos não randomizados, nos quais se observava que pacientes em uso de aspirina tinham menos câncer de cólon. Isso acabou sendo aceito pela comunidade científica por um período, mas nunca houve estudos de fase 3 desenhados especificamente para esse objetivo", explica o oncologista clínico Rodrigo Fogace, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.
O que diz a pesquisa
O estudo ASPREE foi desenvolvido justamente para preencher essa lacuna. O ensaio clínico incluiu 19.114 idosos, com idade média superior a 75 anos, todos saudáveis no início das análises, sem histórico de doenças cardiovasculares, demência ou limitações físicas importantes. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu 100 mg de AAS por dia, durante aproximadamente quatro anos e meio, e o outro recebeu placebo.
Ao longo do acompanhamento, os resultados não confirmaram os benefícios esperados: não houve diferença na incidência global de câncer entre os grupos, nem quando os tumores foram analisados por tipo ou estágio, incluindo o câncer colorretal.
Além disso, durante os anos de uso da medicação, foi observado um aumento de 15% na mortalidade por câncer. Após a interrupção do fármaco, esse risco aumentado não persistiu, o que sugere ausência de um efeito duradouro.
"Alguns estudos anteriores demonstravam redução de 20% a 30% no risco de desenvolver câncer colorretal. Esse foi o maior estudo voltado exclusivamente para a pergunta se o uso da aspirina reduziria ou não o risco de câncer colorretal em idosos. A resposta foi clara: não houve redução do risco e, para nossa surpresa, durante o período de uso, houve um pequeno aumento na incidência do mesmo tipo de câncer", destaca Fogace.
Por que isso acontece?
As razões para esse achado ainda não são totalmente compreendidas. Entre as hipóteses levantadas estão mudanças no microambiente intestinal associadas ao envelhecimento, alterações na resposta imunológica e a possibilidade de que alguns participantes já tivessem tumores microscópicos no início do estudo.
"São explicações possíveis, mas é importante deixar claro que não podemos afirmar que a aspirina cause câncer. O estudo não foi desenhado para responder a essa pergunta", ressalta o oncologista.
E para pessoas mais jovens?
A nova pesquisa tampouco responde se há benefício em usar o ácido acetilsalicílico em pessoas mais jovens como forma de evitar o câncer. "Uma grande diferença dos estudos de pacientes mais jovens é que esses utilizavam a aspirina por muito mais tempo do que esse estudo em idosos propôs. Será que esse é um dos fatores que influenciou nos achados? Infelizmente, não conseguimos afirmar", observa Fogace.
Para o especialista, os resultados reforçam os limites da extrapolação científica. "Não podemos assumir que estratégias que funcionam em pessoas mais jovens terão o mesmo efeito em idosos. O estudo deixa claro que a aspirina não é uma estratégia universal de prevenção do câncer colorretal e que seu uso deve ser feito com muita cautela e apenas em situações muito específicas", afirma.
Quando a aspirina é indicada?
Entre os casos com indicação para uso do medicamento estão:
- Pessoas com síndrome de Lynch
- Pacientes com histórico de múltiplos adenomas ressecados
- Pacientes que já utilizam aspirina para prevenção de eventos cardiovasculares
Sinais de alerta para o câncer de intestino
De acordo com o Ministério da Saúde, a detecção precoce pode ser feita por meio da investigação com exames clínicos, laboratoriais, endoscópicos ou radiológicos em pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença:
- Sangue nas fezes
- Alteração do hábito intestinal (diarreia e/ou prisão de ventre)
- Dor, cólica ou desconforto abdominal
- Fraqueza, indisposição e anemia
- Perda de peso sem causa aparente
- Sensação de inchaço abdominal
Cenário no Brasil
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que o problema provocou cerca de 20 mil mortes no Brasil apenas em 2019. O mês de março é dedicado à divulgação de informações sobre a doença, já que, se detectado precocemente, o câncer de intestino é tratável e o paciente pode ser curado.