Tatiana Sampaio: Brasil perdeu patente internacional de polilaminina após cortes de verbas
Pesquisadora relata que falta de recursos entre 2015 e 2016, durante governo Temer, impediu pagamento de taxas e abriu caminho para que outros países utilizem tecnologia desenvolvida na universidade pública
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O Brasil sofreu uma perda significativa no campo da ciência e da inovação. A pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revelou que o país perdeu a patente internacional da polilaminina – uma substância desenvolvida ao longo de quase três décadas de pesquisa e que tem se mostrado capaz de recuperar movimentos em pacientes com lesões na medula espinhal.
Em entrevista, a doutora Tatiana explicou que o pedido de patente foi feito ainda em 2007, quando a pesquisa estava em estágio inicial, seguindo todos os trâmites corretos: primeiro o registro nacional e, na sequência, o internacional . No entanto, a falta de verbas nos anos de 2015 e 2016 inviabilizou a manutenção do registro fora do país.
"Os recursos da UFRJ foram cortados em 2015 e 2016, e não havia dinheiro para pagar a patente internacional. Parou de pagar as patentes internacionais, e a internacional foi perdida. Não pode refazer, não pode reapresentar. Podem copiar à vontade" , declarou a pesquisadora .
A patente nacional, por sua vez, só foi mantida porque a própria cientista arcou temporariamente com os custos. "Eu paguei do meu bolso por um ano para poder não perder" , relatou .
Para Tatiana Sampaio, o caso exemplifica como decisões orçamentárias têm impactos estruturais e duradouros sobre a produção científica nacional. "Esses cortes de gastos têm consequências. A gente podia ter no Brasil a patente internacional" , lamentou . Ao comentar o contexto político da época, a pesquisadora associou a perda diretamente aos cortes realizados durante o governo Temer: "Os cortes no governo do Temer, né? Exatamente" , afirmou .
Segundo ela, houve um projeto deliberado de enfraquecimento da produção científica nacional. "Eles queriam inviabilizar sim. Era um projeto de entregar todo o nosso conhecimento científico, inclusive o pessoal formado nas universidades públicas brasileiras, para utilização fora" , concluiu .
O que é a polilaminina e por que essa perda é grave?
A polilaminina é uma versão modificada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano que se torna mais escassa com o tempo . Desenvolvida em laboratório pela equipe da professora Tatiana Sampaio, a substância atua como uma ponte biológica capaz de recriar conexões entre os neurônios danificados e o restante do corpo .
Os resultados são impressionantes. Em estudos iniciais com oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos, a aplicação da polilaminina devolveu movimentos a seis deles. Um dos casos mais emblemáticos é o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu um acidente de trânsito em 2018 com esmagamento completo da medula espinhal. Após o tratamento, Bruno se recuperou e hoje vive normalmente, quase sem sequelas .
A pesquisa, que completa 28 anos em 2026, é 100% nacional e foi desenvolvida inteiramente na universidade pública. Tatiana Sampaio é formada pela UFRJ em Biologia, com mestrado, doutorado e pós-doutorado pela instituição, onde chefia o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular do Instituto de Ciências Biomédicas .