31 de julho de 2025
Em Nova Délhi

Lula defende governança global da IA e alerta: “Quando poucos controlam os algoritmos, não é inovação, é dominação”

Presidente participa da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, na Índia, e afirma que tecnologia pode ampliar desigualdades e ameaçar democracias sem regulação internacional

Por Redação
Publicado em
Presidente Lula e outros líderes durante a cerimônia de abertura da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial (IA), no Centro de Convenções Bharat Mandapa, em Nova Délhi, na Índia - Foto: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu, nesta quinta-feira (19), em Nova Délhi, uma governança global da inteligência artificial (IA) baseada no multilateralismo, na inclusão e no desenvolvimento sustentável. Durante discurso na Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, o chefe do Executivo brasileiro alertou que a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucos países e empresas representa risco à soberania, à democracia e à redução das desigualdades.

Segundo Lula, a chamada Quarta Revolução Industrial avança em ritmo acelerado, enquanto o multilateralismo enfrenta retrocessos. Para ele, sem ação coletiva entre as nações, a inteligência artificial pode aprofundar assimetrias históricas. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, afirmou.

O presidente destacou o caráter “dual” das grandes inovações tecnológicas, ressaltando que a inteligência artificial pode tanto ampliar o bem-estar coletivo quanto gerar impactos negativos significativos. Lula mencionou o uso de conteúdos falsos manipulados por IA como ameaça direta aos processos eleitorais e à estabilidade democrática.

Ele citou ainda exemplos históricos, como o uso do átomo e a engenharia genética, para reforçar que tecnologias de grande alcance exigem responsabilidade ética e política. Segundo o presidente, a IA pode impulsionar setores como saúde, segurança alimentar, energia e serviços públicos, mas também fomentar práticas ilícitas, como desinformação, discurso de ódio, pornografia infantil, violência de gênero e uso de armas autônomas.

Outro ponto central do discurso foi a necessidade de regulamentação das grandes empresas de tecnologia. Lula afirmou que capacidades computacionais, infraestrutura digital e capital permanecem concentrados em poucos conglomerados internacionais, que se apropriam de dados gerados por cidadãos e instituições públicas sem contrapartida equivalente.

Para o presidente, a regulação das chamadas Big Techs é essencial para proteger direitos humanos no ambiente digital, garantir a integridade da informação e preservar as indústrias criativas nacionais. Ele criticou modelos de negócios baseados na exploração de dados pessoais e na monetização de conteúdos que estimulam polarização e radicalização política.

Lula destacou que o Brasil tem avançado internamente na formulação de políticas para o setor. Em 2025, o país lançou o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, voltado à modernização de serviços públicos, estímulo à inovação e geração de emprego e renda. O governo também discute um marco regulatório específico para IA e busca atrair investimentos para centros de dados.

Segundo dados citados pelo presidente, 2,6 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas do universo digital, conforme levantamento da União Internacional de Telecomunicações. Para Lula, colocar o ser humano no centro das decisões tecnológicas é tarefa urgente.

A Cúpula em Nova Délhi integra o chamado Processo de Bletchley, série de encontros intergovernamentais sobre segurança e governança da IA iniciada no Reino Unido, em 2023. O evento já teve edições em Seul e Paris. Esta é a primeira vez que um presidente brasileiro participa de um fórum global de alto nível dedicado exclusivamente à inteligência artificial.

Relações Brasil–Índia em expansão

A visita marca a quinta ida de Lula à Índia e ocorre em um momento de fortalecimento das relações bilaterais com o primeiro-ministro Narendra Modi. Brasil e Índia estabeleceram cinco pilares estratégicos para a próxima década, incluindo transformação digital, ciência e tecnologia, transição energética e parcerias industriais.

Em 2025, o comércio bilateral alcançou US$ 15 bilhões, alta de 25,5% em relação ao ano anterior. A meta é elevar o intercâmbio para US$ 20 bilhões até 2030, com negociações em curso para ampliar o acordo comercial entre o MERCOSUL e a Índia.

Durante a agenda bilateral, Lula e Modi devem discutir ainda temas como reforma da governança global, fortalecimento das Nações Unidas, desafios ao comércio internacional e a conjuntura geopolítica mundial.

Leia também