Estudo questiona pausas para hidratação da Copa e aponta falhas no protocolo da Fifa
Análise publicada pela revista Nature afirma que interrupções são cientificamente válidas, mas criticadas por não priorizarem o resfriamento dos atletas em situações de calor extremo
Publicado em
As pausas para hidratação adotadas pela Fifa durante a Copa do Mundo de 2026 voltaram ao centro do debate científico. Embora sejam reconhecidas como uma medida importante para reduzir os efeitos do calor sobre os jogadores, especialistas afirmam que a forma como elas vêm sendo aplicadas compromete sua eficácia.
A avaliação foi publicada pela revista Nature, com base em um estudo divulgado no Journal of Science and Medicine in Sport. Segundo os pesquisadores, o problema não está na existência das pausas, mas na maneira como elas são conduzidas durante as partidas.
Pelas diretrizes médicas da Fifa, as interrupções devem ocorrer quando o índice de estresse térmico — medido pela temperatura de bulbo úmido e globo — ultrapassa 32 °C, com o objetivo de prevenir doenças relacionadas ao calor.
No entanto, especialistas ouvidos pela publicação argumentam que, na prática, as pausas acabam sendo influenciadas por fatores como a programação das transmissões de TV e interesses comerciais, em vez de priorizar estratégias eficazes de resfriamento dos atletas.
O pesquisador Harry Brown, que estuda os efeitos do calor sobre o desempenho esportivo, afirma que existe um descompasso entre a teoria e a aplicação do protocolo.
"As pausas, que deveriam ser ajustadas ao estresse térmico ambiental, parecem estar atreladas à programação da televisão e à receita publicitária", afirmou.
Segundo Brown, muitos jogadores permanecem expostos ao sol durante esses intervalos, recebendo orientações táticas, quando deveriam estar em locais sombreados e utilizando métodos de resfriamento corporal.
Outro ponto criticado é que as pausas são realizadas de forma padronizada, independentemente das condições climáticas. Para os pesquisadores, aplicar o mesmo protocolo em partidas disputadas sob calor intenso e em estádios climatizados reduz a efetividade da medida.
O que a ciência recomenda
Em experimentos que simularam partidas de 90 minutos em ambiente com temperatura de 40 °C e umidade de 41%, Brown e sua equipe compararam diferentes estratégias de recuperação.
Os resultados mostraram que pausas com toalhas geladas, bebidas frias e períodos de recuperação em ambientes protegidos reduziram significativamente a temperatura corporal e o esforço cardiovascular dos atletas. Já as interrupções sem medidas efetivas de resfriamento apresentaram pouco impacto.
Com base nessas evidências, os pesquisadores defendem que a Fifa adote protocolos baseados em critérios fisiológicos e no monitoramento em tempo real das condições ambientais.
Entre as recomendações estão a obrigatoriedade de resfriamento ativo durante as pausas, permanência dos jogadores em áreas com sombra, uso de toalhas geladas e líquidos frios, além da redução do tempo destinado a orientações táticas e intervalos comerciais para priorizar a recuperação física dos atletas.