61% dos brasileiros acreditam que violência contra a mulher é fruto de 'escolha errada' da vítima, segundo pesquisa
Cerca de 25% das mulheres entrevistadas disseram "discordar totalmente" da afirmação, superando o percentual masculino na mesma resposta por uma diferença de 6%
Publicado em
Uma pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pelo Movimento Mulher 360 e divulgada nesta segunda-feira (1º), revela um cenário alarmante sobre a percepção dos brasileiros a respeito da violência doméstica. Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados concordam com a afirmação de que, em muitos casos, a violência contra a mulher é fruto de "opções erradas" das próprias vítimas ao escolherem seus parceiros.
O entendimento de que a culpa recai sobre a mulher é maior entre o público masculino, atingindo 65% de aprovação. No entanto, o índice também se mostrou expressivo entre as mulheres, alcançando 58% das respostas positivas.
O nível de instrução dos entrevistados revelou uma das maiores discrepâncias nos dados: o percentual de concordância com a culpabilização da vítima chega a 73% entre pessoas com ensino fundamental, recua para 61% entre quem tem o ensino médio e cai para 48% entre os entrevistados com ensino superior. Para os autores do estudo, essa percepção reforça a transferência da responsabilidade do agressor para a agredida, o que estimula o silêncio e a permanência em ciclos de abuso.
Extremos e divergências entre os sexos
A pesquisa ofereceu cinco opções de resposta aos participantes, variando da discordância total ao consenso absoluto. A maior linha de divisão entre homens e mulheres se concentrou justamente nos dois extremos do questionário.
Enquanto 44% dos homens afirmaram "concordar totalmente" que a violência decorre de uma escolha malfeita da parceira — um índice 8% superior ao registrado entre as mulheres —, o público feminino demonstrou maior rejeição à tese. Cerca de 25% das mulheres entrevistadas disseram "discordar totalmente" da afirmação, superando o percentual masculino na mesma resposta por uma diferença de 6%. Nas demais faixas intermediárias, os números mantiveram-se equilibrados.
Rotina de agressões e reiteração do abuso
O levantamento contou com um módulo de autopreenchimento respondido por 84% das participantes. Os resultados mostraram que a violência de gênero é um fenômeno recorrente na vida das brasileiras: cada vítima relatou ter passado, em média, por três episódios de violência ao longo da vida.
Do total de mulheres ouvidas, 74% afirmaram já ter vivenciado algum tipo de agressão. Os insultos ou xingamentos lideram o ranking de abusos com 59%, seguidos por ameaças de agressão física, empurrões ou chutes com 45%, e episódios de perseguição ou intimidação com 43%.
O estudo também mapeou condutas ainda mais graves. A violência sexual, descrita como ser tocada ou agarrada sem consentimento, foi relatada por 38% das entrevistadas. Além disso, uma em cada quatro mulheres declarou já ter sido espancada ou sofrido tentativa de enforcamento, e 22% afirmaram ter sido alvo de ameaças diretas com armas de fogo ou facas.
Desconfiança nas autoridades alimenta o silêncio
O pós-agressão expõe a fragilidade da rede de apoio pública e a sensação de desamparo das vítimas. Cerca de 37% das mulheres que sofreram a violência de maior impacto no último ano admitiram não ter tomado nenhuma atitude ou iniciativa de denúncia após o ocorrido.
A falta de credibilidade das instituições de segurança ajuda a justificar a inércia. Apenas 19% das mulheres declararam confiar muito na capacidade da polícia para protegê-las, enquanto o índice de alta confiança chega a 31% entre os homens. A percepção sobre a legislação também divide as opiniões: 55% dos homens consideram as leis de proteção eficientes, ao passo que o mesmo percentual de mulheres (55%) demonstra desconfiança em relação à real efetividade das punições e medidas protetivas.
O levantamento do Datafolha foi realizado entre os dias 6 e 11 de abril de 2026, com base em entrevistas com 2.004 cidadãos maiores de 16 anos. A margem de erro máxima é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, sob um nível de confiança de 95%.