Cartas denunciam violência, abusos e medo na ala de mulheres trans da Colmeia, no Distrito Federal
Presas relatam agressões, ameaças, assédio e até pedidos para retornar ao sistema prisional masculino em busca de segurança
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Cartas enviadas por mulheres trans custodiadas na Penitenciária Feminina do Distrito Federal (PFDF), conhecida como Colmeia, no Gama, revelam denúncias graves de violência, intimidação e abusos dentro da ala destinada à população trans da unidade prisional.
Os relatos foram encaminhados à coluna Na Mira, do portal Metrópoles, e descrevem um cenário de medo constante, agressões físicas, ameaças e sofrimento psicológico. Segundo as detentas, a ala que deveria garantir proteção e dignidade às mulheres trans teria se transformado em um ambiente de insegurança e vulnerabilidade.
Presas relatam agressões e intimidações
Nas cartas, as internas afirmam viver sob constante tensão e alegam que algumas detentas seriam responsáveis por práticas de intimidação, violência física e coerção.
Segundo os relatos, mulheres trans que se recusam a manter relações com determinadas pessoas dentro da unidade seriam alvo de ameaças e agressões.
“Hoje convivemos com ameaças, agressões, intimidações e situações extremamente humilhantes. Existem mulheres trans chorando escondido dentro das celas, tentando tirar suas próprias vidas”, afirma um dos trechos das cartas divulgadas.
As denúncias também apontam impactos severos na saúde mental das detentas, que relatam medo permanente e sensação de abandono.
Denúncias incluem assédio e constrangimento
Além das agressões relatadas, as cartas mencionam episódios de assédio direcionado a policiais penais femininas que trabalham na unidade.
Segundo os documentos, servidoras seriam alvo frequente de comentários de cunho sexual e de comportamentos considerados inadequados por parte de alguns custodiados.
As detentas também afirmam que episódios envolvendo materiais com conteúdo pornográfico e atitudes consideradas ofensivas teriam aumentado o clima de tensão dentro da unidade.
Ressocialização teria sido afetada
Outro ponto destacado nos relatos é o impacto da situação nas atividades de ressocialização.
Segundo as internas, muitas mulheres trans deixaram de frequentar aulas, oficinas profissionalizantes e atividades coletivas por receio de sofrer agressões ou represálias.
As cartas também relatam constrangimento durante os dias de visita familiar, especialmente pela presença de mães, irmãs e crianças em ambientes onde ocorreriam comportamentos considerados inadequados.
Pedido para retornar ao sistema masculino
Um dos pontos mais alarmantes das denúncias é a informação de que algumas mulheres trans estariam solicitando transferência para o Complexo Penitenciário da Papuda, destinado ao sistema prisional masculino.
Segundo as cartas, algumas internas afirmam sentir-se mais seguras em unidades masculinas do que na atual ala da Colmeia.
“Muitas já chegaram ao ponto de pedir para voltar para a Papuda porque dizem que lá se sentiam mais seguras do que agora”, relata um dos documentos.
Seape afirma que denúncias são apuradas
Em posicionamento divulgado anteriormente ao portal Metrópoles, a Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape-DF) informou que todas as ocorrências formalmente comunicadas são analisadas e que medidas administrativas, assistenciais e operacionais são adotadas quando necessário.
A pasta também afirmou que houve redução no número de mulheres trans custodiadas na unidade, fator que, segundo a secretaria, contribui para um acompanhamento mais individualizado.
Vara de Execuções Penais também se manifestou
A Vara de Execuções Penais do Distrito Federal (VEP) declarou que situações envolvendo possíveis inconsistências ou abusos relacionados à identificação de gênero são analisadas por meio de procedimentos específicos.
Segundo o órgão, existe um fluxo de verificação que inclui análise documental, escuta qualificada e avaliações multidisciplinares para cada caso.
Pedido por intervenção
Ao final das cartas, as detentas fazem um apelo para que órgãos de Direitos Humanos, Ministério Público e Justiça acompanhem a situação e promovam medidas capazes de garantir proteção e segurança às mulheres trans privadas de liberdade.
As signatárias afirmam que não buscam privilégios, mas o cumprimento de direitos básicos relacionados à integridade física, dignidade e condições humanas de custódia.
O caso amplia o debate nacional sobre políticas de acolhimento, segurança e proteção da população LGBTQIA+ dentro do sistema prisional brasileiro.