31 de julho de 2025
ALAGOAS

Enquanto Santa Mônica enfrenta crise, Governo libera R$ 7 milhões para saúde de Batalha, reduto de Paulo Dantas

Maternidade de referência para gestação de alto risco opera sem ultrassom e com problemas no raio-X, enquanto Estado autoriza repasse milionário para município natal do governador

Por Redação
Publicado em
Gustavo Pontes e Paulo Dantas, na nomeação do secretário de Estado da Saúde. - Foto: Assessoria

A publicação de uma portaria da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) autorizando o repasse de R$ 7 milhões para o município de Batalha, no Sertão alagoano, reacendeu o debate sobre as prioridades da saúde pública em Alagoas. A liberação ocorre em meio a denúncias de falta de equipamentos essenciais na Maternidade Escola Santa Mônica, principal unidade de referência para gestação de alto risco do estado, onde médicos afirmam que pacientes estão sendo atendidas sem acesso a exames fundamentais para o acompanhamento da gravidez.

A transferência para Batalha foi oficializada pela Portaria Sesau nº 5.297, de 28 de maio de 2026, publicada no Diário Oficial do Estado. O documento autoriza o repasse de R$ 7 milhões em parcela única ao Fundo Municipal de Saúde do município para custeio de ações e serviços de Média e Alta Complexidade (MAC).

O valor chama atenção não apenas pelo montante, mas também pelo destino. Batalha é a cidade onde o governador Paulo Dantas construiu sua trajetória política, tendo exercido mandatos como prefeito e mantendo forte influência na administração municipal.

Enquanto isso, em Maceió, a realidade descrita por médicos da Santa Mônica é de dificuldades operacionais que, segundo o Sindicato dos Médicos de Alagoas (Sinmed-AL), colocam em risco mães e bebês atendidos pela rede pública.

De acordo com denúncia apresentada pelo sindicato, o único aparelho de ultrassonografia utilizado para exames doppler obstétricos está sem funcionar desde o início de maio. O equipamento é considerado indispensável para monitorar gestações de alto risco e avaliar condições fetais que podem exigir intervenção médica imediata.

Além da falta de ultrassom, a maternidade enfrenta problemas no setor de radiologia. Segundo o Sinmed, a reveladora do aparelho de raio-X está quebrada há meses, obrigando o encaminhamento de exames para outras unidades de saúde, o que provoca atrasos nos diagnósticos e no tratamento das pacientes.

A situação se torna ainda mais grave porque a Santa Mônica é referência estadual para atendimento de gravidez de alto risco, recebendo pacientes de diversas regiões de Alagoas. Médicos relatam ainda superlotação frequente, com gestantes acomodadas em macas improvisadas e poltronas nos corredores.

O contraste entre a situação da maternidade e a liberação milionária para Batalha levanta questionamentos sobre a destinação dos recursos públicos da saúde.

A portaria da Sesau informa que os R$ 7 milhões serão utilizados para reforçar ações de Média e Alta Complexidade, financiar serviços da rede municipal e custear unidades de saúde vinculadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, o documento não detalha quais programas específicos serão contemplados nem quais investimentos justificam a transferência extraordinária do valor.

Também não há, na publicação oficial, informações sobre metas assistenciais, ampliação de leitos, construção de unidades ou implantação de novos serviços que expliquem a necessidade imediata do repasse.

A comparação se torna inevitável diante das demandas apontadas pelos profissionais da Santa Mônica. Para os médicos, a recuperação dos equipamentos quebrados exigiria investimentos significativamente menores do que os recursos transferidos ao município sertanejo.

A própria presidente do Sinmed, Sílvia Melo, afirmou que uma maternidade de alto risco não pode funcionar sem exames de ultrassonografia disponíveis para as pacientes. Segundo ela, a ausência dos equipamentos compromete diretamente a segurança da assistência prestada às gestantes e aos recém-nascidos.