31 de julho de 2025
ACORDO COM O MPF

Padre denunciado por intolerância religiosa pede desculpas à família de Preta Gil durante missa na Paraíba

Retratação pública ocorreu em igreja no Agreste da Paraíba após acordo judicial; religioso admitiu que palavras foram “ofensivas e inadequadas”

Por Redação
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Padre denunciado por intolerância religiosa pede desculpas à família de Preta Gil em missa na PB - Foto: Youtube/Paróquia Areial

O padre Danilo César de Sousa Bezerra, denunciado por intolerância religiosa após declarações envolvendo a cantora Preta Gil e religiões de matriz africana, fez um pedido público de desculpas à família da artista durante uma missa em Areial, no Agreste da Paraíba. A retratação ocorreu no domingo (10), Dia das Mães, como parte de um acordo firmado com a família Gil na Justiça Cível do Rio de Janeiro.

Durante a homilia, realizada na paróquia da cidade e transmitida ao vivo pelo YouTube, o sacerdote leu integralmente a declaração prevista no acordo, reconhecendo que suas falas feitas em julho de 2025 foram inadequadas e causaram sofrimento aos familiares da cantora.

“Reconheço que, na homilia proferida em 27 de julho de 2025, minhas palavras foram ofensivas, inadequadas e que, por minha imprudência, causaram dor aos familiares de Preta Gil, motivo pelo qual lamento e me retrato publicamente”, declarou o padre.

O pedido de desculpas foi direcionado nominalmente a integrantes da família Gil, incluindo o cantor e compositor Gilberto Gil, além de Flora Gil e outros parentes da artista.

Padre reconhece importância da liberdade religiosa

Na retratação, Danilo César também afirmou que a liberdade religiosa é um direito fundamental e destacou a necessidade de respeito às diferentes manifestações de fé.

Segundo ele, a própria tradição católica depende da garantia desse direito.

“A liberdade religiosa é um dos pilares dos direitos humanos. Como consequência, todos temos que respeitar todas as pessoas que creem de forma diferente”, afirmou durante a missa.

O religioso ainda fez referência às religiões de matriz africana, reconhecendo sua relevância histórica e cultural no Brasil.

“Importante que se reconheça a sua importância histórica e cultural e como um dos elementos constitutivos da diversidade do povo brasileiro”, disse.

Além do pedido público de desculpas, o acordo prevê a doação de oito cestas básicas para uma instituição social. O termo também envolve a Diocese de Campina Grande, responsável pela paróquia onde o sacerdote atua.

Entenda o caso envolvendo Preta Gil

A polêmica começou em 27 de julho de 2025, quando o padre, durante uma homilia transmitida ao vivo pela internet, fez comentários sobre a morte de Preta Gil, vítima de câncer colorretal, relacionando o falecimento às crenças religiosas da artista.

Na ocasião, ele questionou a fé da cantora em religiões de matriz afro-indígena.

“Cadê esses orixás que não ressuscitaram Preta Gil? Já enterraram?”, disse o sacerdote na época.

Além disso, o padre utilizou expressões consideradas preconceituosas ao se referir a religiões afro-brasileiras, classificando-as como “coisas ocultas” e fazendo comentários que geraram forte repercussão negativa.

Após a divulgação das falas, a Associação Cultural de Umbanda, Candomblé e Jurema Mãe Anália Maria registrou denúncia por intolerância religiosa.

Padre também fez acordo com MPF para evitar processo criminal

Além do acordo cível com a família Gil — que evitou o pagamento de R$ 370 mil em indenização por danos morais — o padre também firmou um compromisso com o Ministério Público Federal (MPF) para não responder criminalmente pelo caso.

Entre as obrigações impostas estão:

  • Participação em ato inter-religioso, realizado em fevereiro com participação remota de Gilberto Gil;
  • Produção de resenhas manuscritas sobre obras relacionadas à questão racial e religiões afro-brasileiras;
  • Estudo do documentário Obatalá, o Pai da Criação;
  • Cumprimento de 60 horas de cursos sobre intolerância religiosa;
  • Pagamento de R$ 4.863 à Associação de Apoio aos Assentamentos e Comunidades Afrodescendentes (AACADE).

Na ocasião do ato inter-religioso, Gilberto Gil classificou as declarações do sacerdote como uma “agressão” à memória da filha e às religiões de matriz africana.