31 de julho de 2025
POLÍCIA

Servidor do TRE-PB é "Mister M" e atuava como informante de esquema que fraudava concursos para a "Máfia de Patos"

Investigação da PF revela que Waldir Luiz de Araújo Gomes violava malotes de provas para garantir aprovação de candidatos pagantes. Delegado-geral de Alagoas e funcionários da Caixa estão entre os alvos da Operação Concorrência Simulada

Por Redação
Publicado em
Professor preso pela PF por fraudes em concursos já foi detido em 2017 enquanto fazia prova do MPRN - Foto: Polícia Federal/Divulgação

A Polícia Federal identificou um servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) como peça-chave de uma organização criminosa especializada em fraudar concursos públicos em todo o país. Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido pelos codinomes "Mister M" e "WALDIR AFT VEREADOR" nos diálogos interceptados, usava sua posição de confiança como colaborador de bancas organizadoras para acessar, fotografar e violar o sigilo de provas antes de sua aplicação, entregando o conteúdo ao núcleo criminoso.

As investigações da Operação Concorrência Simulada, deflagrada na última terça-feira (17), apontam que Waldir atuava como "Coordenador de Local de Aplicação" em certames organizados por bancas como a Cesgranrio. Com acesso direto aos malotes, ele rompia os lacres, fotografava os cadernos de questões e os recolocava no fluxo, permitindo que os candidatos comprados chegassem aos locais de prova com todas as respostas em mãos. Em conversas interceptadas, "Mister M" chegou a zombar da segurança das bancas, afirmando que "o lacre é fácil demais, tanto romper quanto botar de novo".

A participação de Waldir foi crucial para fraudar concursos de alto escalão, como o do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Nordeste e do próprio Concurso Nacional Unificado (CNU). Em um dos episódios, as respostas da prova da Caixa foram repassadas para a organização com cinco horas de antecedência. Em outro, o gabarito do concurso do Banco do Brasil chegou ao grupo às 11h da manhã, mais de duas horas antes do início oficial do exame, garantindo a aprovação de um irmão do delegado-geral de Alagoas.

A reincidência de "Dadá Meu Frango" e "Panda/7777"

A operação também resultou na prisão preventiva de dois criminosos reincidentes, que já haviam sido presos em 2017 no âmbito da "Operação Gabarito", que desmontou a chamada "Máfia dos Concursos" sediada em Patos (PB). O professor de português Dárcio de Carvalho Lopes, de 53 anos, identificado nos diálogos como "Dadá Meu Frango", foi novamente detido. Em 2017, ele foi flagrado durante a prova do Ministério Público do RN e admitiu receber R$ 300 por questão respondida. Agora, as investigações mostram que ele voltou a atuar ativamente na fraude do concurso da Polícia Federal, recebendo e repassando respostas em tempo real.

Flávio Luciano Nascimento Borges, conhecido como "Panda/7777", também funcionário da Caixa Econômica Federal, teve a prisão preventiva decretada. Ele aparece em diálogos recebendo imagens de provas e coordenando o repasse de gabaritos, evidenciando a atuação coordenada do esquema. Para a Justiça, a reiteração criminosa e a participação ativa em novos crimes justificaram a necessidade de segregação cautelar para garantia da ordem pública.

Delegado-geral de Alagoas sob suspeita

A investigação também atingiu o alto escalão da segurança pública. Gustavo Xavier do Nascimento, delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, foi alvo de mandados de busca e apreensão. Segundo a PF, o delegado é suspeito de usar seu poder de influência para coagir a organização criminosa a fraudar concursos em benefício de seus familiares. A esposa de Xavier, Aially Soares, foi aprovada no CNU com um gabarito idêntico ao de outros investigados, e o irmão dele, Mércio Xavier, foi beneficiado no concurso do Banco do Brasil.

A "Máfia dos Concursos" com sede na Paraíba

As novas descobertas aprofundam as investigações sobre a organização criminosa com raízes em Patos, no Sertão da Paraíba, que transformou concursos públicos em um mercado clandestino. A quadrilha, liderada por uma família que cobrava até R$ 500 mil por vaga, usava tecnologia de ponta, como pontos eletrônicos implantados cirurgicamente, comunicação em tempo real e até dublês (clones) para substituir candidatos.

A estrutura era sofisticada e hierarquizada, com núcleos especializados em obter as provas (como "Mister M"), distribuir os gabaritos, captar candidatos e lavar o dinheiro, recebendo pagamentos em espécie, ouro, veículos e até procedimentos odontológicos. A PF estima que o grupo atue há mais de uma década, tendo fraudado concursos da Polícia Federal, da Caixa, do Banco do Brasil, da UFPB e do CNU, comprometendo a lisura de certames em todo o território nacional.

Leia também