Servidor do TRE-PB é "Mister M" e atuava como informante de esquema que fraudava concursos para a "Máfia de Patos"
Investigação da PF revela que Waldir Luiz de Araújo Gomes violava malotes de provas para garantir aprovação de candidatos pagantes. Delegado-geral de Alagoas e funcionários da Caixa estão entre os alvos da Operação Concorrência Simulada
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A Polícia Federal identificou um servidor do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB) como peça-chave de uma organização criminosa especializada em fraudar concursos públicos em todo o país. Waldir Luiz de Araújo Gomes, conhecido pelos codinomes "Mister M" e "WALDIR AFT VEREADOR" nos diálogos interceptados, usava sua posição de confiança como colaborador de bancas organizadoras para acessar, fotografar e violar o sigilo de provas antes de sua aplicação, entregando o conteúdo ao núcleo criminoso.
As investigações da Operação Concorrência Simulada, deflagrada na última terça-feira (17), apontam que Waldir atuava como "Coordenador de Local de Aplicação" em certames organizados por bancas como a Cesgranrio. Com acesso direto aos malotes, ele rompia os lacres, fotografava os cadernos de questões e os recolocava no fluxo, permitindo que os candidatos comprados chegassem aos locais de prova com todas as respostas em mãos. Em conversas interceptadas, "Mister M" chegou a zombar da segurança das bancas, afirmando que "o lacre é fácil demais, tanto romper quanto botar de novo".
A participação de Waldir foi crucial para fraudar concursos de alto escalão, como o do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Nordeste e do próprio Concurso Nacional Unificado (CNU). Em um dos episódios, as respostas da prova da Caixa foram repassadas para a organização com cinco horas de antecedência. Em outro, o gabarito do concurso do Banco do Brasil chegou ao grupo às 11h da manhã, mais de duas horas antes do início oficial do exame, garantindo a aprovação de um irmão do delegado-geral de Alagoas.
A reincidência de "Dadá Meu Frango" e "Panda/7777"
A operação também resultou na prisão preventiva de dois criminosos reincidentes, que já haviam sido presos em 2017 no âmbito da "Operação Gabarito", que desmontou a chamada "Máfia dos Concursos" sediada em Patos (PB). O professor de português Dárcio de Carvalho Lopes, de 53 anos, identificado nos diálogos como "Dadá Meu Frango", foi novamente detido. Em 2017, ele foi flagrado durante a prova do Ministério Público do RN e admitiu receber R$ 300 por questão respondida. Agora, as investigações mostram que ele voltou a atuar ativamente na fraude do concurso da Polícia Federal, recebendo e repassando respostas em tempo real.
Flávio Luciano Nascimento Borges, conhecido como "Panda/7777", também funcionário da Caixa Econômica Federal, teve a prisão preventiva decretada. Ele aparece em diálogos recebendo imagens de provas e coordenando o repasse de gabaritos, evidenciando a atuação coordenada do esquema. Para a Justiça, a reiteração criminosa e a participação ativa em novos crimes justificaram a necessidade de segregação cautelar para garantia da ordem pública.
Delegado-geral de Alagoas sob suspeita
A investigação também atingiu o alto escalão da segurança pública. Gustavo Xavier do Nascimento, delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, foi alvo de mandados de busca e apreensão. Segundo a PF, o delegado é suspeito de usar seu poder de influência para coagir a organização criminosa a fraudar concursos em benefício de seus familiares. A esposa de Xavier, Aially Soares, foi aprovada no CNU com um gabarito idêntico ao de outros investigados, e o irmão dele, Mércio Xavier, foi beneficiado no concurso do Banco do Brasil.
A "Máfia dos Concursos" com sede na Paraíba
As novas descobertas aprofundam as investigações sobre a organização criminosa com raízes em Patos, no Sertão da Paraíba, que transformou concursos públicos em um mercado clandestino. A quadrilha, liderada por uma família que cobrava até R$ 500 mil por vaga, usava tecnologia de ponta, como pontos eletrônicos implantados cirurgicamente, comunicação em tempo real e até dublês (clones) para substituir candidatos.
A estrutura era sofisticada e hierarquizada, com núcleos especializados em obter as provas (como "Mister M"), distribuir os gabaritos, captar candidatos e lavar o dinheiro, recebendo pagamentos em espécie, ouro, veículos e até procedimentos odontológicos. A PF estima que o grupo atue há mais de uma década, tendo fraudado concursos da Polícia Federal, da Caixa, do Banco do Brasil, da UFPB e do CNU, comprometendo a lisura de certames em todo o território nacional.