PF diz que delegado-geral da PC de Paulo Dantas comanda esquema de fraudes em concursos
Investigação aponta que Gustavo Xavier usou organização criminosa para aprovar esposa no CNU e irmão em concurso do Banco do Brasil; prisão foi negada pela Justiça, mas buscas e quebras de sigilo foram autorizadas
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A Polícia Federal concluiu, em investigação que corre na 16ª Vara Federal da Paraíba, que o atual delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Gustavo Xavier do Nascimento, nomeado pelo governador Paulo Dantas (MDB), comanda um esquema criminoso de fraudes em concursos públicos. As investigações, que já duram meses, apontam que Xavier passou a exercer "poder de comando" sobre a organização criminosa, coagindo seus integrantes a desviarem as atividades do grupo para beneficiar seus familiares.
Segundo documentos obtidos pela reportagem do portal Francês News, a esposa do delegado-geral, Aially Soares Tavares Pinto Xavier, foi aprovada no Concurso Nacional Unificado (CNU) para o cargo de Auditora Fiscal do Trabalho com um gabarito idêntico ao de outros investigados. O irmão dele, Mércio Xavier Costa do Nascimento, também foi beneficiado no concurso do Banco do Brasil de 2023, utilizando um "clone" – uma pessoa que fez a prova em seu lugar.
De acordo com a PF, Gustavo Xavier passou a integrar o alto escalão da organização criminosa por meio de coação. O colaborador Thyago José de Andrade, apontado como um dos operadores do esquema, relatou em depoimento que, após ser preso, passou a ser coagido por Xavier, que exigia que o grupo fraudasse concursos em favor de pessoas de seu círculo íntimo. As ordens, segundo a investigação, eram repassadas por Eudson Oliveira de Matos, outro policial civil apontado como "porta-voz" do delegado.
As alegações do colaborador foram corroboradas por mensagens e documentos encontrados em aparelhos celulares apreendidos. Em um dos diálogos, Thyago Andrade repassa para Eudson Matos as respostas do concurso do Banco do Brasil antes mesmo do início da prova, garantindo a aprovação de Mércio Xavier. Em outro, há evidências de que a esposa do delegado-geral recebeu as respostas do CNU por meio do mesmo esquema.
Apesar das evidências, a Justiça Federal negou o pedido de prisão preventiva contra Gustavo Xavier neste primeiro momento. O juiz entendeu que, embora existam fortes indícios de participação no esquema, ainda não há elementos suficientes para comprovar, com o grau de certeza exigido para um decreto prisional, o papel de liderança e a coação alegada. O magistrado, no entanto, deixou claro que a situação de Xavier segue sendo investigada e que novas medidas podem ser adotadas se as provas se fortalecerem.
O que foi autorizado
A Justiça autorizou uma série de medidas cautelares contra o delegado-geral e outros investigados:
- Buscas e apreensões no endereço residencial de Gustavo Xavier, em Maceió, e nos endereços dos demais envolvidos.
- Quebra de sigilo telemático de e-mails e contas em nuvem do delegado e de outros suspeitos.
- Interceptação telefônica de números ligados a Xavier e ao grupo.
As prisões preventivas foram deferidas apenas contra Dárcio de Carvalho Lopes da Silva Souza e Flávio Luciano Nascimento Borges, apontados como reincidentes e com alto envolvimento nas fraudes.
O esquema
A investigação revelou que a organização criminosa, que atua há anos em vários estados, utilizava pelo menos duas modalidades de fraude: a obtenção antecipada das provas (com a ajuda de um colaborador de bancas identificado como "Mister M") e o uso de ponto eletrônico para envio de respostas durante a realização dos exames. O grupo atuou em concursos como o CNU, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Polícia Federal.
A participação de Gustavo Xavier no esquema, segundo a PF, eleva a gravidade do caso e expõe a vulnerabilidade do sistema de concursos públicos no país. O governador Paulo Dantas ainda não se manifestou sobre as acusações contra o chefe da Polícia Civil de seu estado.