Ex-repórter do "Programa do Ratinho" faz acusações de homofobia e humilhações nos bastidores: "Tenho vídeos"
Ney Inácio trabalhou com o apresentador por 23 anos e resolveu falar após polêmica de Ratinho com Erika Hilton; jornalista afirma ter provas de constrangimentos, incluindo música pejorativa e ofensas ao vivo
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A polêmica envolvendo as falas transfóbicas do apresentador Ratinho contra a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) ganhou um novo e contundente capítulo. Ney Inácio, jornalista que trabalhou por 23 anos no "Programa do Ratinho" (SBT), decidiu quebrar o silêncio e relatar uma série de humilhações e constrangimentos que afirma ter sofrido nos bastidores da atração. Em vídeo publicado em suas redes sociais, Inácio fez questão de vincular seu depoimento ao caso atual: "Ratinho sempre foi transfóbico, homofóbico, tudo que é 'fobia' ele tem".
O ex-repórter, que era um dos membros mais antigos da equipe até ser demitido em agosto de 2020, detalhou situações que, segundo ele, eram recorrentes durante as gravações. Um dos episódios mais marcantes envolvia a música "Pavão Misterioso", de Ney Matogrosso, que a produção do programa tocava sempre que ele entrava no palco. Ney Inácio conta que, ao questionar o apresentador ao vivo sobre o motivo daquela escolha musical, recebeu uma resposta que considerou ofensiva. "Ratinho, por que você sempre põe essa música? Não entendo", perguntou. A resposta, segundo o ex-repórter, foi: "Porque o pavão não abre o rabo? Ele abre o rabo igual você".
Inácio afirma que a situação era ainda mais grave porque, enquanto a outra repórter do programa, Magdalena Bonfiglioli, recebia uma música animada em suas entradas, para ele era sempre aquela canção. "Eu pedi: 'Ratinho, pelo amor de Deus, para com isso. Eu sou um cara sério, sou um jornalista, não cai bem'", relatou . Em outra ocasião, ele conta que, ao ser chamado ao palco diante da plateia, o apresentador lhe fez uma pergunta de cunho sexual: "Você morde ou chupa?", gerando risadas no público. Ney afirma que, após o ocorrido, deixou o palco e sua matéria não foi ao ar naquele dia.
O jornalista também listou outros termos que, segundo ele, eram usados por Ratinho nos bastidores, como "mariquinha", "mulhezinha" e "bichinha". Em um relato ainda mais grave, Ney afirmou que, durante uma gravação na Rua Augusta, em São Paulo, o apresentador teria insinuado ao vivo que a irmã e a mãe do repórter eram prostitutas.
Ney Inácio foi demitido em agosto de 2020, durante a pandemia de Covid-19, justamente no período em que realizava um tratamento oncológico. Ele venceu um processo trabalhista contra o SBT, que foi obrigado a indenizá-lo. O jornalista justifica o silêncio de tantos anos pelo receio de represálias no mercado de trabalho. "Quando você está trabalhando no programa do Ratinho, as portas estão fechadas em outros lugares. As pessoas associam a sua imagem ao programa, que é tido como baixaria da pior espécie, é tido como esgoto", argumentou.
Agora, ele garante ter provas para embasar cada uma de suas acusações. "Tudo isso que estou falando eu tenho vídeo, porque eu não sou trouxa, eu guardo. Antes de eles tirarem da internet durante o processo que eu meti contra eles, eu guardei todos os vídeos que eu tinha. Do Pavão Misterioso e de todas as coisas que ele falava, tudo isso que eu tô falando, eu tenho vídeo".
As revelações de Ney Inácio surgem em meio à forte repercussão do processo movido por Erika Hilton contra Ratinho. A deputada acionou o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) por transfobia, injúria e violência política de gênero, após o apresentador afirmar em seu programa que "para ser mulher tem que ter útero" e que a eleição de uma mulher trans para a presidência da Comissão da Mulher na Câmara não era "justa" . Erika pede uma indenização de R$ 10 milhões por danos morais coletivos.
Até o momento, Ratinho e o SBT não se manifestaram sobre as acusações feitas pelo ex-repórter. A assessoria do apresentador já havia informado anteriormente que "não se manifesta quando o assunto é de ordem jurídica".