Avião com 118 haitianos fica retido por 10 horas em Viracopos após PF identificar vistos falsificados
Passageiros foram impedidos de desembarcar e passaram a noite em área restrita do aeroporto; companhia aérea acusa violação de direitos humanos e PF diz que investigará contrabando de migrantes
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Um voo fretado vindo de Porto Príncipe, no Haiti, ficou retido por cerca de dez horas no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), na quinta-feira (12). Dos 120 passageiros a bordo, 118 foram impedidos de desembarcar pela Polícia Federal (PF) após a identificação de vistos humanitários falsificados. A aeronave, operada pela companhia Aviación Tecnológica S.A. (Aviatsa), pousou por volta das 9h, mas os imigrantes só foram liberados do avião às 19h, passando a noite em uma sala restrita do terminal com acesso a banheiro, chuveiro e alimentação.
Segundo a PF, durante o procedimento regular de controle migratório, foi constatado que 113 dos 115 passageiros que desembarcaram apresentavam vistos humanitários falsificados. A corporação aplicou a medida administrativa de inadmissão, prevista na Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), e determinou que a responsabilidade pelo retorno dos passageiros ao Haiti é da companhia aérea, que também deveria ter verificado a documentação antes do embarque. A PF informou ainda que investigará a empresa por suspeita de contrabando de migrantes, crime previsto no artigo 232-A do Código Penal.
A Aviatsa, por sua vez, divulgou nota repudiando a condução da operação. A empresa afirmou que os passageiros buscavam exercer o direito de solicitar refúgio ou proteção migratória no Brasil, direito assegurado pela Lei de Migração e pela Lei do Refúgio (Lei nº 9.474/1997). A companhia alegou que os imigrantes ficaram confinados na aeronave sem acesso adequado a água e alimentação, e que advogados de direitos humanos foram impedidos de prestar assistência jurídica. A Aviatsa classificou a situação como "grave violação de direitos humanos" e avalia medidas legais para resguardar os direitos dos passageiros e da tripulação.
Na manhã desta sexta-feira (13), duas crianças haitianas com vistos regulares e a tia delas foram as primeiras a serem liberadas pela Polícia Federal. As meninas, de 8 e 14 anos, são enteadas de Louis Yinder, um haitiano que mora em Santa Catarina e aguardava a família no aeroporto. Os demais imigrantes permanecem em uma área restrita do terminal e deverão iniciar o processo de admissão no Brasil nesta sexta, caso decidam solicitar refúgio individualmente por meio do Sistema Sisconare.
A organização Advogados Sem Fronteiras (ASF) também criticou a ação da PF, afirmando que a conduta pode configurar restrição ilegal de liberdade e abuso de autoridade. A entidade informou que encaminhará o caso ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), à Defensoria Pública da União e ao Ministério Público Federal. A ASF destacou que, entre os passageiros, há pessoas com condições médicas preexistentes, como asma, e crianças com visto de reunião familiar expedido por autoridade consular brasileira.
O Aeroporto de Viracopos recebe regularmente cerca de três voos semanais do Haiti, com aproximadamente 600 imigrantes por semana. O Haiti enfrenta uma grave crise humanitária, com violência de gangues, instabilidade política e escassez de alimentos e medicamentos, o que impulsiona o fluxo migratório para o Brasil.