Clínica alvo da PF em Alagoas recebeu mais de R$ 10 milhões do governo Paulo Dantas só em 2025; NOT segue recebendo verba da Sesau
Esposa de secretário é acusada de registrar 95 atendimentos por hora, número considerado humanamente impossível
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A clínica NOT (Núcleo de Ortopedia e Traumatologia LTMA), um dos principais alvos da Operação Estágio IV da Polícia Federal em dezembro de 2025, recebeu mais de R$ 10 milhões do governo de Alagoas apenas no ano passado. Dados do Portal da Transparência compilados pelo portal Francês News mostram que, ao longo de 2025, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) repassou R$ 10.380.567,49 à empresa.
E os pagamentos não pararam. Em 2026, a NOT já recebeu mais R$ 1.035.880,00 do Fundo Estadual de Saúde. Coincidentemente, o secretário Gustavo Pontes – que foi sócio da clínica até dias antes de ela fechar contrato com a Sesau – retornou ao cargo neste ano, após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que suspendeu seu afastamento.
A investigação da Polícia Federal revelou números que chamaram a atenção dos investigadores. Em fevereiro de 2024, a NOT declarou ter realizado 22.752 consultas de fisioterapia. Para atingir essa marca, a clínica precisaria atender, em média, 95 pacientes por hora – uma produtividade considerada incompatível com a realidade.
A principal profissional responsável por esses atendimentos seria Luciana de Fátima Leite Pontes de Miranda, fisioterapeuta e esposa do então secretário Gustavo Pontes. Só que, além dos supostos atendimentos, Luciana cursava medicina em Olinda (PE), trabalhava como assessora no gabinete do deputado federal Isnaldo Bulhões (MDB) na Câmara dos Deputados e ainda administrava sua própria empresa.
Os registros analisados pela PF mostram que, ao todo, foram pagos R$ 2.314.035,00 referentes a 154.269 sessões de fisioterapia pelo SUS – uma média de 22 mil atendimentos por mês. Para a Polícia Federal, os números comprovam a existência de um esquema de desvio de recursos públicos por meio de procedimentos que não teriam ocorrido de fato.
A cronologia dos fatos também levanta suspeitas. Em 1º de junho de 2023, Gustavo Pontes deixou formalmente a sociedade da Clínica NOT. Onze dias depois, em 12 de junho, a NOT enviou um Plano Operativo à Sesau para integrar o Programa Mais Saúde. O contrato, sob gestão do próprio secretário Pontes, previa um repasse mensal de meio milhão de reais à clínica.
Apesar de não constar mais no CNPJ, o nome de Gustavo Pontes permanecia listado como ortopedista no corpo clínico da NOT no site da empresa. Durante a operação, a PF apreendeu cerca de R$ 616 mil em espécie, R$ 300 mil em joias, US$ 24 mil e € 10 mil em moeda estrangeira.
A operação
A Operação Estágio IV, deflagrada em 16 de dezembro de 2025, investiga um esquema que teria desviado aproximadamente R$ 100 milhões de verbas públicas do SUS. Foram cumpridos 38 mandados de busca e apreensão em Alagoas, Pernambuco e Distrito Federal.
O inquérito aponta que Gustavo Pontes liderava o esquema, utilizando a clínica NOT como centro de captação e multiplicação de recursos desviados. O sócio administrador do NOT, Reinaldo Fernandes Júnior, é apontado como responsável pelo repasse de valores ao secretário.
Luciana Pontes, além de ser investigada por participação ativa no esquema, teve seu nome citado em pedido da PF para anulação de sua nomeação na Câmara dos Deputados, sob suspeita de ser "funcionária fantasma".
Retorno ao cargo
Gustavo Pontes chegou a ser afastado do cargo por 180 dias por determinação judicial. O governador Paulo Dantas (MDB) divulgou nota afirmando que "não compactua com irregularidades" e criou uma comissão para acompanhar as investigações.
Dois meses depois, no entanto, o STJ concedeu liminar suspendendo o afastamento, com base em alegação da defesa de nulidade na investigação. Em 20 de fevereiro, o governador assinou o decreto de retorno, e o nome do secretário voltou a constar no Diário Oficial. No dia da solenidade de abertura dos trabalhos na Assembleia Legislativa, Pontes apareceu sorridente ao lado de Dantas e do presidente da Casa, Marcelo Victor (MDB).
A investigação segue em andamento, agora sob competência do Tribunal de Justiça de Alagoas, após decisão do TRF-5 que reconheceu que os recursos desviados são de origem estadual.