31 de julho de 2025
MINAS GERAIS

Tragédia em Juiz de Fora: buscas são encerradas com 72 mortos; moradores do Paineiras vivem dias de lama, medo e saques

Corpo do menino Pietro, de 9 anos, último desaparecido, foi encontrado no sábado (28). Moradores relatam desamparo, dificuldade para retirar pertences e ação de saqueadores durante a noite

Por Redação
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Chuvas em Juiz de Fora provocam deslizamentos de terra no Bairro Paineiras - Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A Polícia Civil de Minas Gerais informou neste domingo (1º) que as buscas por vítimas das chuvas em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira, foram encerradas. O corpo do menino Pietro, de 9 anos, último desaparecido, foi localizado na noite de sábado (28) no bairro Paineiras. Com isso, subiu para 72 o número de mortos em decorrência dos temporais que atingiram a região desde a última semana — 65 deles em Juiz de Fora e sete em Ubá. Uma pessoa segue desaparecida em Ubá, onde as buscas continuam.

A equipe da Agência Brasil esteve no Paineiras na última sexta-feira (27) e ouviu relatos de moradores que enfrentam dias de incerteza, medo e dificuldades. O bairro, área de classe média com casarões antigos e prédios residenciais, foi um dos mais atingidos. A Defesa Civil orientou a retirada das famílias devido ao risco de novos desmoronamentos, especialmente pela instabilidade na encosta do Morro do Cristo.

Desamparo e rotina de fuga

O engenheiro civil Guilherme Belini Golver, desempregado, mora com os pais em um casarão na rua atingida. Ele não estava em casa no momento do deslizamento, mas percebeu a gravidade da situação ainda durante o temporal: "Quando eu saí, já havia muita água, parecia um rio, de cor amarronzada. Tava igualzinho um rio." Por volta das 22h10, ele saiu para buscar a filha na faculdade. Cerca de 20 minutos depois, recebeu a ligação de um vizinho: "Quando ele chegou aqui fora, já estava essa tragédia toda. A terra invadindo a casa, dentro do portão, da garagem."

Desde então, a família não pode permanecer no imóvel. A Defesa Civil pediu a saída preventiva. Guilherme retorna apenas para limpar a lama e vigiar a casa, que ficou vulnerável. "Limpar, tentar acabar com esse lamaçal. E também ficar de olho na casa, que ficou aberta, a gente perdeu a tranca." Ele lembra que, há cerca de 40 anos, pequenas pedras deslizaram da encosta, o que levou à instalação de contenções, mas admite o receio de novos episódios: "A cabeça da gente fica meio preocupada, aquele medo de acontecer de novo."

Na mesma rua, um policial penal que morava há cerca de quatro meses morreu durante o deslizamento.

Fuga improvisada e perdas materiais

A poucos metros do casarão de Guilherme, três prédios residenciais alugados por uma mesma família também foram atingidos. Em um dos apartamentos mora o motoboy Paulo Barbosa Siqueira, de 25 anos. Ele estava fora quando o desabamento ocorreu, por volta das 22h50. "No momento eu tinha ido buscar minha irmã no serviço por causa da chuva. Quando curvei aqui para entrar no prédio, já tinha caído tudo."

Segundo ele, moradores precisaram improvisar uma rota de fuga entre apartamentos para escapar. "Teve gente que pulou de dois apartamentos para poder ir para o outro. Aí a gente fez o caminho. Isso, salvamos todo mundo. Ninguém veio ajudar a gente. Eu e um policial militar que fizemos o caminho para salvar todos." Um vizinho, policial penal, morreu no episódio.

Desde então, os moradores aguardam autorização para entrar nos imóveis e retirar documentos e pertences. O acesso permanece interditado por risco estrutural. "A gente quer pegar o básico, documento, roupa. A gente está sem nada, de favor na casa dos outros. A gente está usando roupa dos outros. Sem nada para comer."

Paulo afirma que, até agora, não houve um posicionamento formal sobre a situação dos prédios. "Até agora a Defesa não deu um parecer para a gente, nem bombeiro." Ele relata dificuldades para se alimentar e dormir desde a tragédia. "Desde o dia do acontecimento, eu não como, não consigo comer. Nem dormindo direito a gente está."

Saques durante a madrugada

Moradores também denunciam saques durante a madrugada nos imóveis interditados. "Porque de madrugada, quando o pessoal para de trabalhar, estão vindo roubar, saquear nosso prédio."

Os deslizamentos no Paineiras atingiram dois pontos distintos, em ruas próximas. Em uma delas, onde ficam casarões e prédios de classe média, ocorreram danos estruturais e uma morte. Na rua seguinte, equipes de resgate atuaram intensamente após registros de vítimas e desaparecimentos, incluindo o caso de Pietro, de 9 anos, encontrado no sábado.

A Defesa Civil e a Prefeitura de Juiz de Fora ainda não se manifestaram sobre a situação dos moradores desalojados e os relatos de saques.

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