Polilaminina: Tatiana Sampaio defende dados e admite possibilidade de estudo sem grupo controle
Pesquisadora da UFRJ diz que desenho da fase 3 “vai depender da realidade”, mas entidades científicas pedem cautela
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A bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defendeu os dados preliminares da pesquisa com a molécula polilaminina para tratamento de lesões medulares durante entrevista ao Roda Viva, exibido nesta segunda-feira (23). Na ocasião, a pesquisadora admitiu que as próximas fases do estudo poderão, eventualmente, ser conduzidas sem grupo controle, prática considerada incomum e que não é recomendada pela maior parte da comunidade científica em ensaios clínicos.
O grupo controle é utilizado como parâmetro de comparação em pesquisas clínicas. Em geral, parte dos participantes recebe o tratamento padrão já existente, um placebo — quando permitido — ou apenas acompanhamento médico habitual. Essa metodologia permite verificar se a melhora observada em pacientes que recebem o medicamento experimental é, de fato, consequência da substância testada ou resultado de outros fatores, como cirurgias, fisioterapia ou até a evolução natural da doença. No caso das lesões medulares, estudos indicam que entre 10% e 30% dos pacientes podem apresentar algum grau de melhora espontânea, o que torna ainda mais necessária a comparação científica rigorosa.
Apesar de a polilaminina ainda não ter concluído a fase 1 dos ensaios clínicos, Tatiana afirmou que o desenho da fase 3 “vai depender da realidade” e dos resultados obtidos nas etapas iniciais. Segundo ela, caso os efeitos se mostrem muito consistentes, poderá haver dificuldade ética em manter um grupo que não receba a substância experimental. Questionada se conhece outro estudo inovador realizado sem grupo controle, respondeu não ter conhecimento, mas declarou que fará o que considerar eticamente correto.
Durante o programa, a cientista apresentou dados preliminares do estudo. Dos oito pacientes tratados, seis tiveram algum tipo de melhora na função motora, o que representa 75% do grupo. No entanto, apenas um paciente voltou a andar. Os demais apresentaram ganhos motores ou sensitivos, mas sem recuperação funcional significativa. Especialistas ouvidos por veículos nacionais destacam que alguns pacientes podem ter sofrido choque medular — condição temporária após traumas, que pode evoluir com recuperação parcial dos movimentos independentemente da intervenção experimental.
Nos últimos dias, entidades como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia se manifestaram pedindo cautela na divulgação da pesquisa. As instituições ressaltam que a molécula ainda está em fase experimental e que qualquer novo medicamento deve cumprir todas as etapas previstas nos protocolos de ensaios clínicos antes de ser ofertado amplamente. Também houve preocupação com o aumento de pedidos judiciais de uso compassivo da substância, que já somam 57 solicitações, com 28 pacientes submetidos ao tratamento.
A repercussão ganhou força após coletiva realizada pelo laboratório Cristália em setembro do ano passado. Tatiana reconheceu que a divulgação extrapolou o ritmo habitual da ciência e afirmou que o excesso de solicitações judiciais pode prejudicar o andamento da pesquisa. Apesar de classificar a polilaminina como “muito promissora”, reforçou que o estudo ainda está em curso e exige cautela, evidenciando o debate sobre ética, metodologia científica e responsabilidade na comunicação de resultados preliminares.