Polilaminina: a promessa da ciência brasileira para lesões medulares que viralizou nas redes
Em sua pesquisa, a cientista Tatiana Sampaio usava a substância para tratar lesões medulares agudas, ou seja, aquelas que aconteceram há pouco tempo e deixaram as pessoas sem movimentos
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A polilaminina se tornou tema de diferentes trends nas redes sociais nos últimos dias, com destaque para pacientes em recuperação, debates sobre perda de patente e posts de orgulho pela ciência nacional. Instagram e TikTok ficaram tomados pelo assunto. Mas o que, de fato, essa substância pode fazer?
A polilaminina é um composto recriado em laboratório a partir da laminina, uma proteína produzida naturalmente no corpo humano, especialmente durante o desenvolvimento embrionário, quando exerce papel fundamental na organização dos tecidos e no crescimento celular. Em sua pesquisa, a cientista Tatiana Sampaio usava a substância para tratar lesões medulares agudas, ou seja, aquelas que aconteceram há pouco tempo e deixaram as pessoas sem movimentos. Ela conseguiu bons resultados em animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de pessoas, o que levou a uma parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início da pesquisa que deve responder se a polilaminina funciona mesmo como tratamento para pessoas com lesão medular aguda.
Em entrevista ao g1, a pesquisadora explicou que o que ela apresenta ao país hoje é uma substância com a promessa de se tornar uma medicação, mas que ainda há um longo caminho a percorrer. “Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento. No dia em que ele estiver registrado, as pessoas usarem e todas elas recuperarem a função, se todo mundo voltar a andar, aí sim fizemos uma revolução”, afirmou Tatiana. O cuidado da cientista existe porque ainda é necessário cumprir todo o processo exigido para que uma substância prove que é segura e eficaz.
E você pode se perguntar: mas e o caso de Bruno Drummond, que sofreu um acidente com lesão medular em 2018, aplicou polilaminina e hoje faz até musculação? O que especialistas explicam é que há evidências de que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum grau de movimento mesmo sem a droga, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual.
O que a polilaminina pode realmente fazer?
A pesquisa mostrou que há indícios de que ela pode ajudar na regeneração em casos de lesão medular aguda. Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, os prolongamentos dos neurônios se rompem e o organismo forma uma cicatriz no local, criando um ambiente que dificulta a reconexão dessas células. A polilaminina, ao ser aplicada diretamente na área lesionada durante a cirurgia, forma uma espécie de estrutura de suporte que pode facilitar o crescimento desses prolongamentos através da região lesionada, ajudando a restabelecer parte da comunicação entre o cérebro e o corpo.
No ano passado, a equipe de Sampaio divulgou os resultados de um estudo preliminar com oito pacientes. Alguns tiveram alguma evolução, enquanto outros apresentaram recuperação significativa dos movimentos. Os dados, no entanto, ainda não passaram por revisão por pares, processo em que especialistas independentes analisam a metodologia e as conclusões. Como o estudo foi feito com um grupo pequeno de pessoas, não é possível afirmar, com base nesses dados, que a substância é realmente eficaz. Não há também evidência científica de que a polilaminina possa funcionar no tratamento de lesões medulares crônicas, em pacientes que já têm a paralisia há algum tempo.
Por que as pessoas estão usando a polilaminina nas redes?
Desde que o estudo foi divulgado, a repercussão mobilizou pacientes e familiares de pessoas com lesão medular. Dezenas acionaram a Justiça para ter acesso à substância. O Brasil tem uma resolução que permite o uso compassivo de medicamentos ainda em fase de estudo, mas o processo exige avaliação da Anvisa. Como a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão, as decisões judiciais pediam celeridade.
Segundo o laboratório Cristália, são cerca de 40 ações judiciais e 19 aplicações realizadas até agora. Todas essas aplicações, no entanto, não fazem parte de um ensaio clínico formal. Os pacientes recebem a substância, mas não são acompanhados dentro de um protocolo estruturado de pesquisa. Desde o início das mobilizações, cinco mortes foram registradas, mas o laboratório afirma que não têm relação com a polilaminina, e sim com o quadro clínico grave dos pacientes.
O que dizem os especialistas
O g1 conversou com o neurocirurgião Jorge Pagura, professor emérito da Universidade Federal do ABC, e com o especialista em estudos clínicos Leonardo Costa. Ambos foram unânimes: os achados científicos não são suficientes para justificar o uso amplo e irrestrito da substância. Costa explica que há evidências de que 30% dos pacientes podem recuperar os movimentos depois de uma lesão aguda sem qualquer intervenção, dependendo da gravidade da lesão, da agilidade no atendimento e da reabilitação.
Pagura afirma que torce para que a terapia funcione, mas ressalta que, à luz das evidências disponíveis, a substância pode atuar mais como fator de proteção após a lesão do que propriamente como agente de regeneração. “Eu me preocupo com o emocional do paciente, em se criar uma falsa expectativa para as famílias”, disse.
O laboratório Cristália, no entanto, defende que as pesquisas feitas por Tatiana são suficientes para provar eficácia e segurança, e que os estudos necessários agora são apenas uma questão regulatória. A empresa investiu R$ 100 milhões na pesquisa e afirma que, dos oito pacientes do estudo preliminar, seis evoluíram, uma taxa de 75%, bem maior do que os 30% que naturalmente evoluem.
*Com informações do g1