Especialistas defendem fiscalização rigorosa de faculdades de medicina após Enamed apontar falhas em 30% dos cursos
Exame revelou desempenho insatisfatório em instituições municipais e privadas; professoras e entidades médicas cobram regulação efetiva e melhoria no ensino prático
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Os resultados do primeiro Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que apontaram desempenho insatisfatório em cerca de 30% dos cursos – a maioria em instituições municipais ou privadas com fins lucrativos –, reacenderam o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil. Especialistas ouvidos pela reportagem defendem que a solução passa, sobretudo, pelo fortalecimento da fiscalização e da regulação das faculdades.
Para a professora Eliana Amaral, da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e vice-presidente do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, o sistema de regulação deve orientar e exigir planos de correção das instituições com problemas. “A faculdade que inventou de ter uma escola de medicina assumiu uma responsabilidade com a sociedade. O sistema de regulação tem que estabelecer um plano de trabalho e fazer essa instituição se comprometer”, afirma.
Ela ressalva, porém, que avaliar um curso apenas por uma prova é limitado, lembrando que o Enade já sinalizava fragilidades. O caminho, defende, é usar o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), que combina notas de exames com inspeções in loco.
Expansão desordenada e ensino prático
O presidente da Associação Médica Brasileira, César Eduardo Fernandes, critica a “expansão desenfreada” de vagas de medicina, muitas vezes em locais sem infraestrutura adequada para o ensino prático – que corresponde a quase metade da carga horária do curso. “É uma ideia equivocada criar escolas médicas como bancos assistenciais. A melhoria da estrutura tem que vir antes”, afirma.
Já Eliana Amaral propõe um “acordo de sociedade” envolvendo Ministério da Saúde e secretarias estaduais para garantir que a abertura de novos cursos em regiões carentes seja acompanhada de condições reais de aprendizado.
Visão de quem se forma
A estudante Vanessa Conceição da Cruz, que se forma este mês pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) – instituição com nota máxima no Enamed –, credita o bom desempenho ao contato precoce com pacientes e à diversidade de cenários práticos oferecidos. “É importante que os médicos que estão se formando já tenham experiência na atenção primária, que é onde muitos vão atuar”, destaca.
O Ministério da Educação anunciou sanções para as faculdades com pior desempenho.