31 de julho de 2025
devastação

Amazônia perde área equivalente à França em 40 anos e se aproxima de ponto de não retorno, aponta estudo

Entre 1985 e 2024, o bioma perdeu impressionantes 52 milhões de hectares de sua vegetação nativa.

Por Redação
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Em 40 anos, Amazônia perdeu área de vegetação do tamanho da França - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um análise inédita da série histórica do MapBiomas revela que a forma como o ser humano ocupou a Amazônia nos últimos 40 anos acelerou drasticamente a ameaça à capacidade da maior floresta tropical do mundo de contribuir com o equilíbrio do planeta. Os dados, divulgados nesta segunda-feira (15), mostram que entre 1985 e 2024, o bioma perdeu impressionantes 52 milhões de hectares de sua vegetação nativa. Esta área convertida para uso humano, equivalente ao tamanho de um país como a França, representa 13% do território total da Amazônia. Somando-se ao que já havia sido perdido anteriormente, o bioma chegou a 2024 com 18,7% de sua cobertura original suprimida, sendo 15,3% ocupados diretamente por atividades humanas.

De acordo com o pesquisador do MapBiomas, Bruno Ferreira, estes números são um alerta severo. "A Amazônia brasileira está se aproximando da faixa de 20% a 25% prevista pela ciência como o possível ponto de não retorno do bioma, a partir do qual a floresta não consegue mais se sustentar", afirma. A velocidade da transformação é um dos fatores mais críticos: 83% de toda a vegetação nativa perdida foi suprimida justamente nestas últimas quatro décadas. As vastas coberturas verdes deram lugar de forma acelerada à pecuária, agricultura, silvicultura e mineração.

As pastagens, por exemplo, que ocupavam 12,3 milhões de hectares em 1985, expandiram-se para dominar 56,1 milhões de hectares em 2024. A agricultura teve um avanço ainda mais explosivo, crescendo 44 vezes no período, de 180 mil hectares para 7,9 milhões de hectares. Proporcionalmente, a silvicultura foi a que mais aumentou sua presença – 110 vezes –, saltando de 3,2 mil para 352 mil hectares. A mineração também seguiu uma curva ascendente, indo de 26 mil para 444 mil hectares no mesmo período.

Chama a atenção a presença da soja como a cultura dominante, representando 74,4% de toda a área agrícola na Amazônia, com um total de 5,9 milhões de hectares em 2024. Os pesquisadores analisaram sua evolução sob a perspectiva da Moratória da Soja, um acordo que desde 2008 proíbe a compra de grão cultivado em áreas desmatadas após aquela data. A maior parte da expansão da soja (4,3 milhões de hectares) ocorreu justamente após a vigência do acordo. A análise mostra, contudo, que a maior parte disso (3,8 milhões de hectares) se deu sobre áreas já convertidas, como pastagens. A conversão direta de floresta em lavoura de soja após 2008 foi de 769 mil hectares.

O estudo também evidencia os impactos concretos dessa perda. As atividades humanas ocuparam principalmente o lugar de florestas, que representam 49,1 milhões de hectares do total suprimido (quase 95%). "Já podemos perceber alguns dos impactos dessa perda de cobertura florestal, como nas áreas úmidas do bioma. Os mapas de cobertura e uso da terra na Amazônia mostram que ela está mais seca", diz Ferreira. A análise aponta uma retração de 2,6 milhões de hectares de superfícies cobertas por água entre 1985 e 2024, com uma intensificação clara na última década, que registrou oito dos dez anos mais secos da história do bioma.

Em meio ao cenário de perda, há um sinal tênue de recuperação. Em 2024, 2% do remanescente florestal da Amazônia (o equivalente a 6,9 milhões de hectares) é composto por vegetação secundária – áreas que foram convertidas no passado mas entraram em processo de regeneração. Essa vegetação em recuperação foi menos afetada pelo desmatamento no último ano, quando 88% da supressão ocorreu em vegetação primária e apenas 12% em áreas que estavam se regenerando.