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    Após seis anos de cativeiro russo, civis ucranianas libertadas relatam tortura e clamam por justiça

    Em evento em Kiev, Yuliia Panina, Svitlana Holovan e Maryna Berezniatska detalharam horrores sofridos em prisões como a notória Izolyatsia; ONG alerta para desafios na reconstrução física e mental das sobreviventes

    há 4 dias
    Após seis anos de cativeiro russo, civis ucranianas libertadas relatam tortura e clamam por justiça

    Por Redação*


    Enquanto um cessar-fogo na Ucrânia permanece distante, a recente troca de prisioneiros em agosto de 2025 emerge como um raro ponto de luz em meio ao conflito. Três civis ucranianas – Yuliia Panina, Maryna Berezniatska e Svitlana Holovan – recuperaram a liberdade após seis anos de cativeiro em centros de detenção russos, onde sofreram torturas, abusos e a proibição de falar sua própria língua.


    Elas relataram suas experiências em uma conferência emocionante em Kiev, organizada pela ONG Numo Sisters. A diretora da organização, Liudmyla Huseinova, ela mesma uma sobrevivente de três anos de tortura na prisão de Izolyatsia, em Donetsk, foi quem as apresentou ao público.


    Sequestradas e torturadas por serem ucranianas


    As histórias das três mulheres ilustram a brutalidade da ocupação. Yuliia Panina foi sequestrada pelo FSB ao levar a filha à escola em Donetsk, em 2019. Svitlana Holovan, uma operária de uma fábrica de conservas, foi presa em sua casa porque tinha parentes vivendo em território ucraniano não ocupado. Maryna Berezniatska, diretora de um abrigo para cães, foi acusada de espionagem.


    “Ainda não consigo acreditar que esse inferno, que dominou minha vida por seis anos, acabou”, descreveu Svitlana, visivelmente emocionada. “Quando vi todas aquelas pessoas nos recebendo, senti emoções positivas como não sentia há seis anos”.


    O inferno na prisão de Izolyatsia


    Os relatos detalham um sistema projetado para quebrar psicologicamente os detentos. Interrogatórios intermináveis, isolamento, humilhações, abusos físicos e sexuais, simulações de execução e privação de direitos básicos como água, comida e medicamentos eram práticas comuns. A proibição de falar ucraniano sob ameaça de tortura adicional era uma regra cruel.


    “Para nós, o milagre aconteceu, e estamos aqui. Mas lá, na detenção, ainda há mulheres, pelo menos seis, que estão presas há muito tempo”, alertou Yuliia Panina, lembrando daqueles que permanecem cativos.


    O longo caminho da recuperação e da justiça


    Liudmyla Huseinova, da Numo Sisters, alertou para os desafios que as libertadas enfrentarão. “É preciso reconstruir-se psicologicamente e fisicamente... A gente se sente forte, acha que pode superar tudo sozinha, mas depois de alguns meses, os problemas de saúde física e mental começam e nos dominam”. Ela criticou a falta de uma estrutura estatal robusta para apoiar ex-detentos, um problema que persiste há 11 anos.


    Representantes do Ministério Público ucraniano, presentes no evento, garantiram que a justiça será buscada. Viktor Missak afirmou que criminosos de guerra, incluindo soldados e diretores de centros de detenção, estão sendo identificados e acusados à revelia, para que um dia respondam perante tribunais ucrainianos ou internacionais.


    Embora mais de 60 trocas de prisioneiros tenham ocorrido desde 2022, a Rússia se recusa a aceitar um acordo "todos por todos". Para Yuliia, Svitlana e Maryna, o tempo da justiça pode ainda estar distante, mas o tempo de reconstruir suas vidas e reencontrar suas famílias finalmente começou.


    *Com Metrópoles e RFI


    Foto: Reprodução/ Emmanuelle Chaze/RFI

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