31 de julho de 2025
VIOLÊNCIA URBANA

Facção do Rio teria assumido controle de cidade na Paraíba e infiltrado prefeitura, apontam investigações

Polícia Federal e Ministério Público investigam atuação do Comando Vermelho em Cabedelo; esquema incluiria monitoramento remoto, intimidação armada e infiltração em órgãos públicos

Por Redação
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Segundo as investigações, integrantes da facção criminosa Comando Vermelho monitoram a rotina dos moradores de Cabedelo (PB) a partir do Rio de Janeiro - Foto: TV Globo/Reprodução

Uma cidade de pouco mais de 60 mil habitantes no litoral da Paraíba estaria sendo monitorada e controlada, à distância, por integrantes de uma facção criminosa instalada no Rio de Janeiro. Segundo investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público da Paraíba (MP-PB), o município de Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa, vive um cenário de “colapso institucional” diante da suposta influência do Comando Vermelho sobre áreas estratégicas da administração pública e da rotina dos moradores.

De acordo com as autoridades, criminosos ligados ao Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, passaram a exercer controle territorial e político na cidade, interferindo desde a segurança local até nomeações em cargos públicos. O caso já motivou mais de dez operações da Polícia Federal e do Ministério Público, que investigam crimes como corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e infiltração do grupo em estruturas da prefeitura municipal.

As investigações apontam que integrantes da facção monitoravam a rotina de Cabedelo diretamente do Rio de Janeiro, utilizando um sistema clandestino de vigilância composto por dezenas de câmeras espalhadas pela cidade. Áudios obtidos pelas autoridades mostram criminosos organizando a observação do território e acompanhando movimentações em tempo real. Em uma gravação, um dos investigados afirma haver “30 câmeras geral”. Em outro registro, um integrante exibe imagens do monitoramento e afirma: “Oi, família. Minha visão de cria aqui. Só paz e tranquilidade”. Para a Polícia Federal, o esquema operava como uma espécie de “home office do crime organizado”, permitindo que ordens fossem dadas a mais de dois mil quilômetros de distância.

As chamadas câmeras “besouros”, utilizadas pela facção, eram escondidas em postes, árvores, fios elétricos e até dentro de estruturas metálicas pintadas para dificultar a identificação. Segundo a Polícia Militar da Paraíba, os equipamentos eram usados para monitorar operações policiais, identificar rivais e controlar o cotidiano dos moradores.

No centro das investigações aparece o nome de Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, apontado pelas autoridades como um dos líderes da organização criminosa no Nordeste e responsável por coordenar ações a partir do Complexo do Alemão. Aos 43 anos, Fatoka teria iniciado sua trajetória na facção Nova Okaida, na Paraíba, e depois fundado a chamada “Tropa do Amigão”, considerada um braço do Comando Vermelho na região. Contra ele existem 13 mandados de prisão por crimes como tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa.

Fatoka chegou a ser preso no Presídio de Segurança Máxima da Paraíba, mas fugiu em setembro de 2018 durante uma fuga em massa de 92 detentos, que utilizaram explosivos para deixar a unidade prisional. Após ser recapturado, conseguiu liberdade monitorada com tornozeleira eletrônica em 2022, mas rompeu o equipamento no mesmo dia em que foi instalado e fugiu para o Rio de Janeiro, onde permanece foragido, segundo a polícia.

Mesmo à distância, ele continuaria exercendo influência sobre o território paraibano. Áudios atribuídos ao investigado revelariam planos de expansão para o bairro do Bessa, em João Pessoa, utilizando uma estratégia conhecida entre criminosos como “ponteamento”, termo usado para mapear áreas e eliminar rivais. Em uma das mensagens interceptadas, uma voz afirma: “O que está faltando de nós é ponteamento no Bessa. Aquele quadrado todinho”.

Em Cabedelo, moradores relatam medo e evitam falar sobre a presença da facção. Imagens analisadas pela investigação mostram grupos armados circulando por ruas residenciais e efetuando disparos para o alto. Em um dos vídeos, um criminoso avisa à população: “Estamos presentes toda noite, toda madrugada, em prol de defender as nossas vidas e as vidas de vocês”. Em setembro de 2024, um morador gravou um vídeo após o carro da esposa ser atingido por tiros e fez um apelo por segurança. Segundo a investigação, a resposta atribuída a Fatoka foi dura: “Os caras sabem que a gente tá numa guerra”.

Além do domínio territorial, investigadores apontam que o crime organizado teria avançado para dentro da máquina pública municipal. Segundo o Ministério Público, os últimos quatro prefeitos de Cabedelo foram alvo de investigações relacionadas a corrupção ou irregularidades administrativas: Leto Viana, que renunciou enquanto estava preso; André Coutinho, que teve mandato cassado; Edvaldo Neto, afastado após a eleição; e Vitor Hugo, declarado inelegível. As defesas de André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo negam envolvimento com organizações criminosas e sustentam inocência. A defesa de Leto Viana não se pronunciou.

O esquema investigado incluiria loteamento político de cargos, “rachadinhas”, funcionários fantasmas e desvios de dinheiro público. O prejuízo estimado aos cofres municipais seria de aproximadamente R$ 270 milhões. Uma empresa terceirizada, a Lemon Terceirização e Serviços Ltda., também é citada na investigação como possível instrumento para infiltração de aliados da facção em setores da prefeitura e da Câmara de Vereadores.

Em depoimento, uma ex-integrante do esquema afirmou que indicações ligadas a Fatoka eram automaticamente incluídas na folha de pagamento municipal. Segundo ela, bastava mencionar que a indicação era do grupo criminoso para garantir contratação. Em contrapartida, a facção teria oferecido proteção política em áreas dominadas e restringido o acesso de opositores a determinadas regiões.

Enquanto isso, moradores convivem com denúncias de abandono da cidade. Há reclamações sobre falta de coleta de lixo, ruas sem pavimentação e equipamentos públicos deteriorados. Em algumas unidades públicas, serviços essenciais funcionariam de forma limitada, enquanto parte dos contratos administrativos segue sob investigação.

O atual presidente da Câmara Municipal, José Pereira, assumiu interinamente a prefeitura e afirmou que a gestão tenta reorganizar o município diante da crise. Já a Procuradoria-Geral informou que o contrato com a empresa Lemon deverá ser anulado, mas de forma gradual, para evitar a interrupção de serviços prestados por centenas de trabalhadores.

Em nota, a defesa de Fatoka afirmou que não existem provas concretas que liguem o investigado aos fatos narrados pelas autoridades. A empresa Lemon também negou irregularidades, declarou colaborar com as investigações e informou empregar mais de 700 pessoas em Cabedelo.