Um ano sem Francisco: as principais mudanças na Igreja com o papa Leão XIV
Morte do pontífice mais progressista das últimas décadas completa um ano; eleito em maio de 2025, o norte-americano Leão XIV mantém bandeiras sociais, mas aposta em tom mais cauteloso e menos confrontador
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A morte do papa Francisco completa um ano nesta terça-feira (21/4). Aos 88 anos, o Santo Padre faleceu após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC), deixando como legado um pontificado marcado pela atuação social intensa e pelo diálogo com diferentes setores da sociedade, incluindo minorias, governantes e lideranças de outras religiões. O seu sucessor, o norte-americano Robert Francis Prevost, que adotou o nome de papa Leão XIV, foi eleito em 8 de maio de 2025, após um conclave de dois dias. A escolha ocorreu na quarta votação entre os 133 cardeais eleitores — um ritmo considerado rápido para os padrões do Vaticano, o que indicou consenso em torno de um nome capaz de garantir continuidade com estabilidade.
Antes de se tornar papa, Prevost já era visto como uma figura de confiança no Vaticano. Próximo de Francisco e com experiência à frente da Congregação para os Bispos, ele conhecia de perto tanto as tensões internas da Cúria Romana quanto o alcance das reformas iniciadas pelo antecessor. Sua eleição refletiu a busca por um perfil moderado, que mantivesse o legado de Francisco, mas ao mesmo tempo ajudasse a reduzir conflitos internos e fortalecer a unidade da Igreja. A mudança, portanto, não foi de rumo, mas de estilo. Enquanto Francisco levou a Igreja Católica para o centro de debates globais com posições diretas e abertura pastoral, Leão XIV tem adotado uma postura mais cautelosa, com maior ênfase na doutrina, na organização interna e em uma comunicação menos confrontadora.
Na área social, as semelhanças entre os dois pontificados são maiores do que as diferenças. Leão XIV tem mantido bandeiras que ganharam destaque nos anos anteriores, como o combate à desigualdade, a defesa dos imigrantes e a atenção às populações mais vulneráveis. Esses temas continuam presentes em discursos e orientações oficiais. A principal mudança aparece na forma de conduzir essas questões. Durante seu pontificado, Francisco ampliou o debate sobre inclusão com gestos e falas que sinalizavam maior aproximação com diferentes grupos, incluindo a comunidade LGBTQIA+. Já o atual papa adota uma postura mais reservada: o discurso de acolhimento permanece, mas sem avanços institucionais ou iniciativas concretas nessa área. A participação de leigos e mulheres também segue como tema importante, dentro da proposta de uma Igreja mais participativa, conhecida como sinodalidade. Ainda assim, Leão XIV tem se mostrado cauteloso quando o assunto envolve mudanças mais profundas na estrutura, como a ampliação de funções religiosas para mulheres — uma pauta que ele já tratou com ressalvas em ocasiões anteriores.
Apesar das diferenças de estilo, há áreas de clara continuidade entre os dois pontificados. A atenção aos mais pobres, por exemplo, segue como um dos principais eixos da atuação de Leão XIV. Em discursos, o atual papa tem reforçado a necessidade de uma Igreja próxima de quem mais sofre, mantendo uma das marcas mais fortes do período anterior. A pauta ambiental também continua presente: Leão XIV tem reiterado preocupações com as mudanças climáticas e a sustentabilidade, embora adote um tom mais moderado e menos enfático do que o de Francisco ao tratar do tema. Outro ponto de continuidade é a crítica às desigualdades econômicas, assunto que permanece recorrente nas manifestações do papa, indicando que a doutrina social da Igreja segue como base das posições e ações do Vaticano.
Uma das diferenças mais claras entre os dois pontificados está na condução interna da Igreja. Francisco foi marcado por estimular debates e tensionar estruturas tradicionais, movimento que, por vezes, ampliou divisões entre alas progressistas e conservadoras. Já Leão XIV tem como prioridade reduzir esses conflitos e reforçar a coesão institucional. Nesse contexto, o atual papa tem enfatizado a centralidade da doutrina e evitado interpretações mais flexíveis em temas sensíveis. A estratégia é conter a polarização com a adoção de um discurso mais uniforme. Na prática, essa abordagem aponta para uma Igreja menos propensa a mudanças rápidas e mais voltada à consolidação de posições já estabelecidas, com foco na estabilidade interna.
Na política internacional, a principal mudança entre os pontificados está no estilo de atuação. Francisco adotou uma postura mais direta, fazendo críticas públicas a líderes e governos, e teve presença ativa em debates globais como guerras, migração e meio ambiente. Leão XIV mantém esses temas como prioridade, mas com uma abordagem diferente. Em vez de declarações públicas incisivas, ele evita citar líderes nominalmente e aposta em uma diplomacia mais discreta, baseada em negociações e articulações nos bastidores. Um exemplo recente foi a troca de farpas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na semana passada: ao responder às críticas do republicano, o papa evitou citá-lo diretamente, optando por um tom mais institucional. A defesa da paz segue como eixo central, assim como o apoio ao multilateralismo e ao respeito ao direito internacional. A diferença, mais uma vez, está no tom: Leão XIV prefere menor exposição pública e uma atuação mais reservada nas relações internacionais, consolidando um papado que, sem romper com o passado, busca escrever seu próprio capítulo na história da Igreja.