Disparada do petróleo: gasolina pode ficar mais cara no Brasil e inflação pode adiar corte de juros
Especialistas analisam impactos da guerra no Oriente Médio sobre a economia brasileira; exportação pode ser beneficiada, mas custo de vida tende a subir
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Depois dos ataques no Irã por parte dos Estados Unidos e Israel, uma commodity dominou os mercados mundiais: o petróleo. O combustível fóssil subiu 35% na última semana de conflito e 103% se comparado a dezembro de 2025. O efeito nas bolsas globais foi imediato: mercados asiáticos derreteram quase 6%, enquanto a Europa despencou nesta segunda-feira (9).
Mas, afinal, a disparada do petróleo lá fora vai deixar a gasolina mais cara no Brasil?
Para André Braz, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o impacto deve ser sentido nos preços dos combustíveis caso o conflito se prolongue. "Os derivados do petróleo vão muito além dos combustíveis. A agricultura sofre com adubos e fertilizantes. A aviação entra na conta com o querosene. Gás, indústria plástica... tudo depende do petróleo. Com a commodity cara, a inflação volta a subir. E isso pode adiar a revisão de juros", explica.
Braz destaca que o Brasil pode ser favorecido como exportador. "À medida que a gente exporta mais, os preços elevados se tornam um fator positivo. Entram mais dólares e a balança comercial melhora", diz. No entanto, ele faz um alerta: "Dependemos de derivados que não produzimos, e esses produtos tendem a ficar mais caros com a importação."
Para Spinola, especialista ouvido pela reportagem, existe um lado positivo. Com a alta das cotações, a Petrobras deve reajustar preços em breve. "Com uma receita maior, a empresa pagaria mais dividendos. O maior beneficiado seria o governo, com receita maior", avalia.
A expectativa é que um reajuste de até US$ 10 por barril aumente a receita da Petrobras em US$ 12 a US$ 15 bilhões. "É uma decisão do governo: repassar, gerar inflação e aumentar receita, ou não repassar, controlar a inflação e abrir mão da receita extra", explica.
O mercado brasileiro aguarda há tempos um corte na Selic, que está em 15% desde julho de 2025. A inadimplência subiu para 5,5% em janeiro, o maior nível desde 2017. Empresas do agronegócio bateram recorde de pedidos de recuperação judicial em 2025.
Gustavo Cruz, analista da RB Investimentos, alerta: "Com os preços do petróleo mais altos, bancos centrais podem revisar projeções de juros. Isso pode afetar o Copom, que iniciaria um ciclo de cortes. Se as tensões continuarem, o BC pode fazer um corte mínimo, enquanto o mercado esperava 0,5 ponto".
Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, pondera: "A Selic e a curva de juros estão elevadas, o que dá margem para o BC continuar os cortes. Mantemos a projeção de cortes de 0,5 ponto na próxima reunião".
O conflito no Oriente Médio segue indefinido, e os próximos dias serão decisivos para definir os rumos da economia global — e o preço que o brasileiro vai pagar na bomba.