31 de julho de 2025
MUNDO

Derrubar regime iraniano por invasão terrestre seria "tarefa hercúlea e sangrenta", diz embaixador brasileiro

Em entrevista à Rádio Nacional, André Veras analisa dez dias de conflito, aponta resiliência do Irã e não descarta solução diplomática para a guerra

Por Redação
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Embaixador do Brasil no Irã: derrubar o regime será tarefa sangrenta - Foto: Reprodução/Majid Asgaripour/Reuters

O embaixador do Brasil no Irã, André Veras, avaliou nesta segunda-feira (9) que a derrubada do regime islâmico por forças militares estrangeiras seria uma tarefa "hercúlea, sangrenta" e extremamente custosa, com graves consequências para a economia global. Em entrevista ao programa Alô Alô Brasil, da Rádio Nacional, Veras analisou os dez dias de conflito entre o Irã e a coalizão liderada por Estados Unidos e Israel.

"Daí a discussão sobre o possível envio de soldados", disse o embaixador, apontando as dificuldades que tropas estrangeiras enfrentariam em uma eventual incursão terrestre. Ele citou as dimensões do território iraniano, o terreno montanhoso e a própria capacidade militar do país, ressaltando que a situação é diferente de outras experiências recentes dos EUA. "Aqui, a coisa vai exigir um pouco mais de esforço se quiserem realmente derrubar o regime. Será uma tarefa hercúlea. Sangrenta", afirmou.

Apesar dos ataques aéreos que mataram o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e centenas de civis, Veras destacou que serviços básicos como água, luz e gás continuam funcionando. O comércio segue aberto, as escolas mantêm aulas remotas e os mercados continuam abastecidos, embora a gasolina esteja racionada – um problema que, segundo o embaixador, já existia antes do conflito devido à limitação da capacidade de refino.

A rápida substituição de Khamenei por seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, de 56 anos, foi apontada por Veras como prova da solidez institucional do Irã. A Assembleia dos Especialistas escolheu Seyyed dias após a morte do pai, e a decisão foi confirmada neste domingo (8). "O Irã está muito bem estruturado legalmente. O sistema tem uma resiliência muito grande. Qualquer desaparecimento de qualquer função tem um processo automático de substituição", avaliou.

O embaixador ponderou, no entanto, que a escolha de Seyyed pode alimentar críticas internas ao regime, já que a Revolução Islâmica de 1979 foi feita contra um sistema hereditário. "Cria uma impressão de que o sistema substituído permanece, de outra forma", comentou. Ele destacou que Seyyed, que atuava como "coadjuvante nas sombras", tem forte ligação com a Guarda Revolucionária e setores conservadores, o que representa "uma dura resposta do Estado" às contestações internas e externas.

Sobre a comunidade brasileira no Irã, Veras informou que não há necessidade de uma operação de retirada, pois as fronteiras terrestres seguem abertas e há poucos brasileiros vivendo no país – cerca de 200 pessoas, em sua maioria mulheres casadas com iranianos. A embaixada mantém contato diário com o Itamaraty, que informa constantemente o presidente Lula sobre a situação.

Embora reconheça que a resistência aos ataques seja uma questão "de vida ou morte" para a continuidade do regime, Veras não descarta uma solução diplomática. Ele argumentou que o Irã precisa do fim das sanções econômicas impostas pelos EUA, enquanto o mundo necessita de paz para que a economia global funcione e as rotas comerciais sejam mantidas. "Mesmo que alguns possam pensar que o controle do fornecimento de petróleo vai favorecer este ou aquele país, em uma economia globalizada, todos perdem com uma guerra", advertiu.

O embaixador concluiu que os custos crescentes do conflito podem trazer "mais racionalidade" à condução do processo, abrindo espaço para negociações. "Há espaço para uma solução diplomática porque os custos da guerra estão aumentando muito", finalizou.

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