31 de julho de 2025
SOMOS ALVO?

EUA devem classificar PCC e CV como terroristas, e Brasil pode virar alvo militar

Medida transformaria operações de facções brasileiras em alvos legítimos de ataques militares americanos, mesmo em solo nacional; Planalto articulava aproximação com Trump

Por Redação
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e o presidente do Brasil, Lula. - Foto: Ricardo Stuckert/PR

As equipes técnicas do governo dos Estados Unidos concluíram os trabalhos para designar os grupos criminosos PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas estrangeiras. A medida, que abre caminho para sanções e até mesmo ações militares contra os criminosos, já passou pela fase de análise técnica e agora aguarda apenas uma chancela política, o que deve ocorrer nos próximos dias. Segundo diplomatas ouvidos pelo ICL Notícias, a decisão dificilmente será revertida.

Se confirmada, a classificação transformará as bases e operações do PCC e do CV em alvos legítimos de ataques militares dos EUA, mesmo em território estrangeiro – incluindo o Brasil. A medida alinharia as facções brasileiras a uma lista que já inclui organizações criminosas de outros países da América Latina, como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, o colombiano Clã do Golfo, os haitianos G9 e Família, e os equatorianos Los Choneros.

Diplomacia ameaçada e articulação de bolsonaristas

A decisão ameaça a suposta "boa química" que existiria entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O combate ao crime organizado seria um dos principais pontos de uma reunião entre os dois líderes, prevista para ocorrer entre março e abril. O governo brasileiro acreditava ter neutralizado o risco ao propor um programa conjunto para lidar com o crime organizado, mas a pauta, entre diplomatas, também é vista como um instrumento político de pressão.

A classificação como terroristas era uma reivindicação de setores bolsonaristas que, ao colocar o tema como central na relação com os EUA, buscavam o envolvimento direto do governo Trump na agenda doméstica brasileira. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou a sugerir a necessidade de uma ação americana em território nacional. Ele recebeu uma delegação americana ainda em 2025 para debater o tema e deu sinal favorável à medida. Um suposto dossiê foi preparado pelo governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, e enviado à Casa Branca com detalhes sobre os grupos criminosos.

Ramagem, fuga e pressão sobre o Brasil

Dentro do governo, existe a suspeita de que informações possam ter sido passadas pelo ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, que hoje vive nos EUA como foragido da Justiça brasileira. Condenado a mais de 16 anos de prisão por sua participação na trama golpista, Ramagem deixou o Brasil em setembro de 2025, violando medidas cautelares que incluíam a retenção de seu passaporte. Ele foi localizado em um condomínio de luxo em North Miami, na Flórida, onde vive com a família.

Ramagem foi o relator original do Projeto de Lei 1.283/2025, que propõe alterar a Lei Antiterrorismo brasileira para enquadrar facções criminosas como organizações terroristas. A proposta, que cita nominalmente o governo Trump como modelo, foi aprovada na Comissão de Segurança Pública da Câmara com apoio da bancada bolsonarista. Atualmente, o projeto tem como relator o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PL), deputado licenciado.

Ao ICL Notícias, a chefia da Polícia Federal confirmou que sequer aceitou receber uma delegação do Departamento de Estado norte-americano, em 2025, que queria convencer o Brasil a também classificar os grupos como terroristas. A delegação acabou sendo recebida pelo Ministério da Justiça e pelo Itamaraty e, em ambos, ouviu que o Brasil não seguiria na mesma linha.

O governo federal descartou publicamente a possibilidade de classificar PCC e CV como terroristas. O secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, afirmou que as facções não se enquadram no conceito jurídico de terrorismo porque não atuam em defesa de uma causa ou ideologia, mas sim em busca de lucro por meio de ilícitos . O presidente Lula já havia afirmado que terrorismo e crime organizado são problemas distintos e "não devem servir de desculpa para intervenções à margem do direito internacional" .

Alvo militar e precedentes na região

Um dos principais temores das autoridades brasileiras é que, com a designação, as operações do PCC e do CV se transformem em alvos legítimos de ataques militares dos EUA. Semanas depois de designar grupos colombianos como terroristas, o governo Trump intensificou os ataques contra barcos na costa do país sul-americano.

Nas últimas semanas, o governo Trump lançou ofensivas contra o narcotráfico no México e no Equador. Em ambos, o discurso oficial foi de que se tratou de uma operação conjunta. No último fim de semana, Trump sinalizou seu interesse em transformar o combate ao narcotráfico num instrumento de controle da região, anunciando a criação de uma "aliança militar" contra os grupos criminosos ao lado de uma dezena de países latino-americanos. Em seu discurso, ele afirmou que fará com o narcotráfico o mesmo que os EUA fizeram com o Estado Islâmico: bombardear em territórios estrangeiros. Em tom de brincadeira, avisou aos demais presidentes da região: "vocês querem mísseis? Posso também bombardear. Esses mísseis são precisos".

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