31 de julho de 2025
saúde

Melancia é fonte de substância que protege o coração, mas dose ideal exige técnica; entenda

Fruta concentra L-citrulina, aminoácido que ajuda na vasodilatação e regula a pressão; casca tem mais compostos que a polpa

Por Redação
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Imagem ilustrativa - Foto: Freepik

Conhecida por hidratar nos dias quentes, a melancia vai muito além do alto teor de água. Uma revisão narrativa de 124 estudos, conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e publicada na revista Nutrients, indica que tanto a polpa quanto a casca da fruta concentram compostos com potencial cardioprotetor, em especial a L-citrulina, um aminoácido associado à vasodilatação e à regulação da pressão arterial.

A L-citrulina recebeu esse nome justamente por ter sido identificada pela primeira vez na melancia, cujo termo científico é Citrullus lanatus. No organismo humano, ela pode ser convertida em L-arginina, substância crucial para a síntese de óxido nítrico, um composto gasoso derivado do endotélio – tecido celular que reveste a parte interna dos vasos sanguíneos. O óxido nítrico contribui para a vasodilatação, a regulação da pressão arterial e a proteção contra processos inflamatórios, além de atuar contra o estresse oxidativo, prevenindo a oxidação do colesterol LDL. Esse processo reduz a formação de placas nas artérias e, consequentemente, o risco de doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).

Casca concentra mais L-citrulina que a polpa

A melancia é considerada a melhor fonte alimentar de L-citrulina e, quanto mais madura, maior o acúmulo do composto. "O teor na casca da melancia vermelha fresca varia entre 60 e 500 mg/100g, já a polpa contém de 40 a 160 mg/100g", explica o nutricionista Diego Baião, pesquisador da UFRJ e primeiro autor da revisão. O desafio, no entanto, está na quantidade necessária para obter efeitos terapêuticos: a dose mínima eficaz da substância é de 2 a 3 gramas por dia, o que exigiria o consumo de 1 a 3 quilos de casca ou de 3 a 5 quilos de polpa diariamente.

É aí que a ciência e a tecnologia podem fazer a diferença. "A produção de um pó permitiria concentrar maior quantidade da substância e dos demais compostos bioativos, além de facilitar o transporte e o armazenamento", sugere Baião, abrindo caminho para o desenvolvimento de suplementos e alimentos enriquecidos a partir da fruta.

Vitaminas, minerais e outros compostos protetores

Mas nem só de L-citrulina é composta a melancia. "Polpa e casca destacam-se pela baixa densidade energética e o fornecimento de carboidratos, vitaminas e minerais, enquanto as sementes contêm proteínas, lipídios e vitamina E", detalha a nutricionista Ana Clara Ledezma Greiner de Souza, do Hospital Israelita Albert Einstein.

A versão vermelha, muito mais comum no país, acumula licopeno, enquanto as melancias amarelas ofertam betacaroteno. Ambos são carotenoides, pigmentos de potente ação antioxidante que também despontam em estudos pela atuação cardioprotetora. Há ainda os compostos fenólicos, metabólitos secundários produzidos pela planta para sua própria proteção contra variações climáticas, radiação solar e ventos, que também colecionam evidências de benefícios ao coração.

Hidratação e equilíbrio hídrico

Não bastasse ofertar compostos protetores, a melancia ajuda a refrescar e hidrata o organismo como poucos alimentos. Relatos históricos revelam que a fruta, originária da África, serviu para matar a sede em travessias por desertos. "O consumo pode contribuir para a manutenção do equilíbrio hídrico, especialmente em climas quentes e durante a prática de atividade física", destaca Souza. Isso porque, além de água, a melancia contém eletrólitos como potássio e magnésio. Graças aos açúcares naturalmente diluídos no fruto, tem boa palatabilidade e permite a ingestão em maiores volumes sem impacto calórico significativo.

Sem milagres, mas com equilíbrio

Mesmo com tantos atributos, porém, a melancia não é milagrosa. Evidências científicas indicam que nenhum alimento, de forma isolada, é capaz de prevenir ou tratar doenças. "A alimentação saudável é construída com equilíbrio, variedade e a interação entre diferentes nutrientes, sempre considerando a individualidade e os hábitos de vida de cada pessoa", salienta a nutricionista Bárbara Valença Caralli Leoncio, também do Einstein.

Como consumir

A melhor maneira de incluir a melancia no dia a dia é na versão in natura. "Assim se preservam melhor os nutrientes", afirma Ana Clara Souza. Suas fatias suculentas podem vir no café da manhã, como opção de sobremesa no almoço e jantar ou nos lanches entre as refeições. Se a ideia é preparar receitas, vale apostar em suco, smoothie, picolé e até salada. "Combina com folhas, legumes frescos e queijos", indica a nutricionista.

Também dá para usar a casca, que muitos descartam. "Ela serve para fazer geleias e conservas, enquanto as sementes podem ser torradas e consumidas como um snack nutritivo", sugere Diego Baião. Uma dica importante na hora da compra é preferir o fruto inteiro. Embora existam opções de melancia vendida em pedaços, é preciso cuidado: se faltar higiene durante o manuseio da faca usada para o corte, a contaminação por micro-organismos nocivos pode comprometer seus benefícios e até trazer riscos à saúde.