Agonorexia: o alerta dos médicos sobre os perigos do uso indiscriminado de canetas emagrecedoras
Termo importado dos EUA descreve perda extrema de apetite induzida por remédios como Ozempic e Mounjaro; especialistas temem danos à saúde física e mental
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A popularização das canetas emagrecedoras tem levado médicos brasileiros a identificar um quadro emergente na prática clínica: a agonorexia. O termo, importado dos Estados Unidos, descreve um padrão novo: a perda de apetite semelhante à anorexia (transtorno alimentar grave), porém provocada por remédios — os chamados agonistas de GLP‑1 e análogos combinados.
O conceito ainda não é um diagnóstico oficial, mas já preocupa por suas possíveis complicações quando os medicamentos são usados sem indicação médica ou sem acompanhamento adequado.
As chamadas canetas emagrecedoras são seringas pré‑enchidas com medicamentos injetáveis, como semaglutida (Ozempic, Wegovy e Rybelsus) e tirzepatida (Mounjaro). Esses fármacos imitam hormônios liberados pelo intestino e atuam no cérebro para reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade, facilitando a perda de peso quando usados com indicação médica.
O que os médicos começam a ver nas consultas é uma inibição tão marcante do apetite que passa do campo do efeito desejado para uma condição potencialmente perigosa.
"A agonorexia ainda não é entidade clínica estabelecida, não há critérios diagnósticos bem definidos. Não é um distúrbio mental clássico, mas já dá para dizer que é um efeito farmacológico extremo", disse à CNN Brasil o endocrinologista Clayton Macedo, médico do corpo clínico do Einstein e diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Macedo foi um dos especialistas a trazer o termo agonorexia para o debate nacional. Para ele, a questão-chave é o contexto de uso das canetas. "Elas são medicamentos para tratar doenças como obesidade e diabetes. Usados corretamente, fazem parte de um tratamento multidisciplinar. Usados sem indicação ou em doses altas desde o início, podem provocar danos graves", reforça.
O médico alerta ainda para versões manipuladas e contrabandeadas, que trazem risco à saúde por não terem regulação em sua produção ou terem sido corretamente testadas. "Estudos mostram que alguns manipulados têm concentração acima do esperado, o que aumenta efeitos adversos", destacou.
Embora a agonorexia ainda não seja um diagnóstico oficial, os clínicos já identificam sinais que merecem atenção:
- Perda de peso acelerada
- Náuseas persistentes
- Fraqueza extrema
- Isolamento social
- Aumento compulsivo da atividade física
"É um sinal de alerta vermelho quando o paciente valoriza excessivamente a diminuição do apetite ou demonstra ansiedade intensa para manter a medicação", afirmou a psiquiatra Tâmara Kenski, professora da faculdade de medicina Santa Marcelina.
Macedo alerta para riscos clínicos reais: a perda rápida de peso aumenta a formação de cálculos biliares, que podem provocar pancreatite — em casos graves, pancreatite necrotizante pode levar à morte.
Outro problema é a perda de massa magra. "Mesmo quando há perda preferencial de gordura, parte do músculo também se perde. Sem acompanhamento nutricional e exercício de resistência, o paciente corre risco de sarcopenia no futuro", explica.
"Estamos criando uma geração que talvez, no futuro, tenha uma perda muscular importante. Estão perdendo um patrimônio, porque, para o envelhecimento, o músculo é o que vai determinar se o indivíduo será um idoso frágil ou não", complementa.
Especialistas recomendam que o uso desses medicamentos seja sempre acompanhado por médico qualificado, preferencialmente endocrinologista, com escalonamento adequado de doses, acompanhamento nutricional e programa de exercícios. Também é indicada triagem psicológica quando houver sinais de risco.
"A decisão de continuar, reduzir ou interromper a medicação deve ser multidisciplinar", reforça Tâmara Kenski.
Macedo adverte contra a comercialização em ambiente puramente estético. "Há clínicas que vendem protocolos caros com soro, implantes e pacotes; o foco precisa ser saúde, não lucro." Ele recomenda desconfiar de promessas fáceis e consultar sociedades científicas para informações confiáveis.
Por fim, o médico deixa uma mensagem direta: "A caneta — quando bem utilizada — não é perigosa. O problema é o uso indevido."