Paquistão declara "guerra aberta" ao Talibã e bombardeia Cabul; Irã se oferece para mediar conflito
Ministro da Defesa paquistanês afirmou que "a paciência se esgotou" após ataques na fronteira; China, Rússia e ONU pedem cessar-fogo imediato
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O ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, declarou "guerra aberta" ao governo Talibã do Afeganistão nesta sexta-feira (27), após uma escalada de ataques entre os dois países vizinhos. A declaração foi feita na rede social X, onde Asif afirmou que o Talibã "privou os afegãos de seus direitos e começou a exportar terrorismo". "Nossa paciência se esgotou. Agora é guerra aberta entre nós e vocês", escreveu.
A tensão começou a aumentar no último domingo (22), quando o Paquistão realizou bombardeios contra supostos refúgios do grupo insurgente TTP (Tehreek-e-Taliban Pakistan) em solo afegão. O TTP é um grupo militante que quer derrubar o governo paquistanês e transformar o país num emirado islâmico. Islamabad acusa o regime talibã no Afeganistão de abrigar militantes do TTP e permitir que lancem ataques contra o Paquistão a partir do território afegão - acusação que Cabul nega.
Na quinta-feira (26), as forças afegãs responderam atacando tropas paquistanesas ao longo dos 2.600 quilômetros de fronteira entre os dois países . A retaliação afegã levou o Paquistão a bombardear, na madrugada desta sexta, a capital afegã, Cabul, além das cidades de Kandahar (centro espiritual do regime) e Paktia. Segundo o ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, os ataques tiveram como alvo posições consideradas estratégicas da defesa talibã.
Versões divergentes sobre baixas
As informações sobre vítimas são conflitantes. O Paquistão afirma que os ataques de Islamabad causaram a morte de 133 combatentes talibãs e mais de 200 feridos, além de ter destruído 74 postos do Talibã e 27 postos fronteiriços. Já o Ministério da Defesa afegão estimou as próprias baixas em oito combatentes mortos e onze feridos, além de treze civis afetados pelos bombardeamentos.
Por outro lado, os talibãs afirmam ter matado 55 soldados paquistaneses, ter sob custódia 23 corpos de militares paquistaneses e um número indeterminado de prisioneiros, além de ter tomado mais de 15 postos avançados paquistaneses. O Paquistão nega essas informações e diz que nenhum de seus postos militares foi tomado ou danificado.
Reação internacional
O Irã foi o primeiro país a oferecer ajuda para mediar o conflito. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araqchi, publicou em suas redes sociais: "A República Islâmica do Irã está pronta para prestar toda a assistência necessária para facilitar o diálogo e fortalecer o entendimento e a cooperação entre os dois países". Na nota, Araqchi citou o mês sagrado do Ramadã (celebrado este ano de 17 de fevereiro a 19 de março) como um período apropriado para que os dois países "administrem e resolvam as diferenças existentes no âmbito da boa vizinhança e por meio do diálogo".
A China, que mantém relações estratégicas com ambos os países, declarou estar "profundamente preocupada" com a escalada do conflito e pediu um cessar-fogo imediato. "Como vizinha e amiga, a China está profundamente preocupada com a escalada do conflito e entristecida pelas vítimas causadas por ele", afirmou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning.
A Rússia, único país a reconhecer formalmente o regime talibã, também apelou ao fim das hostilidades e afirmou que consideraria mediar as negociações caso houvesse uma solicitação de ambas as partes. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, declarou: "Apelamos aos nossos amigos do Afeganistão e do Paquistão para que abandonem este confronto perigoso e voltem à mesa de negociações".
O secretário-geral da ONU, António Guterres, expressou "profunda preocupação" com o aumento da violência e destacou a necessidade urgente de ambas as partes priorizarem a proteção dos civis. Turquia, Catar e Arábia Saudita também discutiram o conflito e se ofereceram para mediar a situação.
Contexto do conflito
As relações entre Paquistão e Afeganistão, historicamente complexas, pioraram desde que o Talibã voltou ao poder no Afeganistão em 2021. A linha Durand, que separa os dois países e foi traçada em 1893 durante o domínio colonial britânico, nunca foi aceita pelo Afeganistão como fronteira legítima.
Nos últimos meses, os postos fronteiriços terrestres praticamente fecharam desde os combates mortais de outubro de 2025, que mataram mais de 70 pessoas de ambos os lados. Várias rodadas de negociações, com mediação inicial do Catar e da Turquia, não conseguiram produzir um acordo duradouro.
A violência também aumentou na província paquistanesa de Khyber Pakhtunkhwa, onde quase 20 policiais e civis morreram em ataques nos últimos dias, a maioria reivindicados pelo TTP. O Paquistão, potência nuclear, tem capacidades militares muito superiores às do Afeganistão, mas os talibãs são especialistas em campanhas de guerrilha, tendo adquirido experiência ao longo de décadas de combates.
O ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, divulgou uma declaração em resposta aos ataques: "Os afegãos defenderão a sua amada pátria com total união em todas as circunstâncias e responderão à agressão com coragem". O porta-voz do governo afegão, Zabihullah Mujahid, afirmou que o Afeganistão responderá a "todo ato maligno do Paquistão".