31 de julho de 2025
RIO DE JANEIRO

Quem é Adilsinho, o bicheiro 'sanguinário' preso pela PF que virou patrono do Salgueiro e dono de time de futebol

Contraventor de 55 anos é acusado de liderar esquema de cigarros ilegais, com ramificações em vários estados; festa no Copa durante a pandemia e ligação com escola de samba marcam trajetória de ostentação

Por Redação
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Cartola e artilheiro. Adilsinho jogou como atacante no time que ele mesmo fundou, o Clube Atlético da Barra da Tijuca - Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um mês após posar de black tie no Copacabana Palace em uma festa de aniversário para 500 convidados, no auge da pandemia de Covid-19, o contraventor Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, de 55 anos, voltou a ser alvo da Polícia Federal. Desta vez, foi preso na manhã desta quinta-feira (26) em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, em mais um desdobramento da Operação Fumus, que investiga uma quadrilha especializada na venda ilegal de cigarros e na exploração do jogo do bicho.

A trajetória de Adilsinho mistura ostentação, violência e uma ascensão meteórica no submundo da contravenção carioca. Nascido em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, em maio de 1970, ele cresceu em meio ao jogo do bicho. Seu pai era sócio da "Paratodos", uma das bancas que dominavam a região. A sorte no jogo garantiu à família uma mudança para o Leblon, na Zona Sul do Rio, onde Adilsinho deu os primeiros passos para construir o império que hoje comanda.

Do primeiro flagrante à liderança do crime

O primeiro registro policial de Adilsinho é de 1991, quando foi detido dirigindo sem documentos. À época, um delito menor para quem, décadas depois, seria acusado de comandar execuções, sequestros e atentados. Hoje, ele é apontado pela Polícia Federal como líder de uma organização criminosa com ramificações em vários estados, que inclui desde a exploração do jogo ilegal até a produção e distribuição de cigarros contrabandeados do Paraguai.

A virada na carreira criminosa de Adilsinho começou a ganhar contornos mais nítidos em maio de 2021, quando ele promoveu uma festa de aniversário no Copacabana Palace. O evento, que desrespeitou as recomendações sanitárias da pandemia, contou com shows de Gusttavo Lima, Ludmilla, Alexandre Pires e Dudu Nobre. O convite, inspirado no filme "O Poderoso Chefão", já dava o tom: Adilsinho se via como uma espécie de "don" da contravenção carioca.

Um mês depois, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fumus, a primeira a acusá-lo formalmente de chefiar uma quadrilha que impunha, com violência, o monopólio da venda de cigarros ilegais no Grande Rio. De lá para cá, ele foi alvo de quase uma dezena de operações, até ser preso agora em Cabo Frio.

Futebol e Carnaval: a face pública do contraventor

Apesar dos negócios obscuros, Adilsinho sempre buscou projeção pública. Em 2010, fundou o Centro Esportivo Yasmin, batizado com o nome da filha. O clube, que depois se tornou o Clube Atlético da Barra da Tijuca, disputou divisões inferiores do Campeonato Carioca. Adilsinho não era apenas o presidente: ele também atuava como atacante. Entre 2011 e 2018, disputou 63 partidas, marcou 10 gols e chegou a ser considerado o jogador mais velho em atividade no país.

As cores do time são as mesmas do Fluminense, seu clube de coração. O escudo tricolor, inclusive, virou sua marca registrada no submundo do crime, estampado até nos lacres de suas máquinas de caça-níquel.

Mas foi no carnaval que Adilsinho alcançou o posto mais cobiçado. Em março de 2024, foi apresentado como patrono do Salgueiro, na quadra da escola, no Andaraí. O cargo já havia sido ocupado pelos bicheiros Miro e Maninho, pai e filho, mortos em 2004. A chegada de Adilsinho ao comando da agremiação aconteceu em meio a uma disputa sangrenta pelo controle da escola e de outros negócios do clã.

Com o apoio de Rogério Andrade e Vinicius Drumond, integrantes da chamada "nova cúpula do bicho", Adilsinho tomou áreas do jogo ilegal que antes eram dominadas por Maninho. Durante uma feijoada na quadra do Salgueiro, discursou: "Espero com a minha chegada conseguir estar levando o Salgueiro, junto com todo o pessoal, o presidente, os segmentos. Sem vocês, é difícil. Espero contribuir bastante".

A nova geração da contravenção

Longe dos holofotes, Adilsinho foi consolidando seu poder. Em uma ligação interceptada pela PF em 2022, ele manifestou a intenção de criar uma "nova cúpula do jogo" para substituir a "velha guarda" da contravenção, representada por bicheiros como Capitão Guimarães (patrono da Vila Isabel) e Anísio Abraão David (da Beija-Flor). "Já deu, já passou! É outra geração agora! Tem que entender! Não tem santo... é tudo malandro! Tudo bandido mesmo!", afirmou na conversa.

A expansão dos negócios para o mercado de cigarros ilegais trouxe novos crimes. Desde 2022, a PF já resgatou pelo menos 70 paraguaios em condições análogas à escravidão em fábricas clandestinas da quadrilha instaladas no Rio. Os trabalhadores eram aliciados no Paraguai, trazidos ilegalmente e submetidos a jornadas de 12 horas diárias, sem folgas, sob vigilância armada.

O carnaval de 2025 e a relação com as escolas

No carnaval de 2025, o nome de Adilsinho como patrono do Salgueiro foi mencionado ao microfone na Sapucaí. A escola, no entanto, não foi bem e ficou fora do Desfile das Campeãs. A derrota motivou uma nota indignada contra "ladrões de plantão". Neste ano, às vésperas do desfile, outra mensagem foi divulgada, pedindo "julgamentos justos" e mencionando confiança na "lisura" da Liesa. Nos bastidores, especulou-se que Adilsinho teria pedido para que seu nome fosse desvinculado da agremiação, orientando que evitasse menções a ele na quadra para não atrapalhar o investimento no desfile.

A prisão de Adilsinho, agora, coloca em xeque não apenas os negócios ilegais que comandava, mas também as relações construídas no mundo do samba e do futebol. A Polícia Federal segue investigando o caso, e novos desdobramentos devem surgir nos próximos meses.

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