31 de julho de 2025
justiça

Julgamento de acusados pela morte de Mãe Bernadete começa nesta terça; família pede pena máxima

Liderança quilombola foi assassinada com 25 tiros dentro de casa em 2023; réu confesso e foragido estão entre os cinco denunciados

Por Redação
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Maria Bernadete Pacífico - liderança quilombola morta em agosto de 2023 - Foto: Reprodução/TV Globo

O olhar do ativista Jurandir Pacífico mistura ansiedade e dor na manhã desta terça-feira (24). A partir das 8h, ele acompanha no Fórum Ruy Barbosa, em Salvador, o julgamento de dois dos cinco acusados pelo assassinato de sua mãe, Maria Bernadete Pacífico, liderança quilombola morta em agosto de 2023. A expectativa de Jurandir é que os réus recebam a pena máxima.

“Minha expectativa é que se comece a se fazer justiça para esse assassinato bárbaro. Vou chegar cedinho. Minha mãe era uma pessoa de 72 anos que sempre atuou em defesa dos direitos humanos”, disse Jurandir em entrevista à Agência Brasil. O julgamento será conduzido por um júri popular composto por sete pessoas.

O caso, que ganhou repercussão internacional, coloca no banco dos réus Arielson da Conceição Santos, executor do crime e réu confesso, e Marílio dos Santos, apontado como mandante e chefe do tráfico de drogas na região, que está foragido. Ambos respondem por homicídio qualificado, cometido por motivo torpe, meio cruel, com impossibilidade de defesa da vítima e uso de arma de fogo de uso restrito. Arielson também responde pelo crime de roubo.

Mãe Bernadete foi assassinada dentro de casa, na comunidade quilombola de Pitanga dos Palmares, em Simões Filho (BA), alvejada por 25 tiros. No momento do crime, três netos dela, de 12, 13 e 18 anos, estavam na residência e foram trancados em um quarto pelos criminosos. Segundo as investigações da Polícia Civil e do Ministério Público da Bahia, a execução teve como motivação a atuação de Bernadete contra a expansão do tráfico no quilombo e a retirada de uma barraca usada para venda de drogas, de propriedade de Marílio, conhecido como "Maquinista".

“Isso é muito doloroso. Ver o cara que tirou a vida de sua mãe”, desabafou Jurandir, emocionado. Os outros três denunciados — Sérgio Ferreira de Jesus, Josevan Dionísio dos Santos e Ydney Carlos dos Santos de Jesus — serão julgados posteriormente.

O advogado criminalista Hédio Silva Jr., que representa a família na acusação, afirma que as provas materiais são robustas, incluindo evidências coletadas logo após o crime e mensagens obtidas por meio de interceptações de telefones roubados na comunidade. “As perícias foram muito bem feitas”, garantiu. O processo tem mais de 2,5 mil páginas.

O criminalista defende que o crime é quadruplamente qualificado e que os réus podem ser condenados a mais de 35 anos de prisão. “Nós vamos pedir pena máxima certamente”, afirmou. Durante o julgamento, cinco testemunhas de acusação devem depor. A defesa dos réus, a cargo da Defensoria Pública local, indicou três pessoas para falar, após advogados particulares renunciarem ao caso.

Para Hédio Silva Jr., o julgamento é fundamental não apenas para fazer justiça por Mãe Bernadete, mas também para desencorajar novos crimes contra populações tradicionais. Segundo relatório da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), de janeiro de 2019 a julho de 2024, 46 lideranças quilombolas foram assassinadas em 13 estados do país.

A família de Bernadete já havia sido vitimada antes, em 2017, com a morte de Flávio Gabriel Pacífico dos Santos, o Binho do Quilombo. “Eu perdi meu irmão em 2017 e até o dia de hoje está no ocaso. Ninguém está preso”, lamentou Jurandir. Atualmente, ele e o sobrinho Wellington Pacífico vivem sob escolta, protegidos pelo Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos (PPDDH). O julgamento tem previsão de encerramento apenas na quarta-feira (25).