"Sem vontade de voltar": estudante quilombola é retirada de sala de aula na UFPA por levar filho de 7 meses
Professora teria dito para jovem escolher entre estudar ou cuidar da criança; caso gerou protesto de coletivos e Centro Acadêmico, que pedem expulsão da docente
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Uma estudante quilombola da Universidade Federal do Pará (UFPA) foi convidada a se retirar da sala de aula a pedido de uma professora por estar acompanhada do filho de sete meses. O caso ocorreu na última segunda-feira (9) e mobilizou coletivos universitários e centros acadêmicos, que realizaram um ato na última quarta (11) pedindo a expulsão da docente e apoio às mães na universidade.
À CNN Brasil, Lorrany da Paixão Maia, estudante da Faculdade de Desenvolvimento Rural, onde se forma como extensionista rural, relatou que havia entrado em contato previamente com um dos professores da disciplina informando que não conseguiria deixar o filho sozinho em casa. Nos áudios acessados pela reportagem, o professor com quem a estudante tentou resolver a situação afirmou que não daria aula, mas teria dito que a docente responsável havia autorizado a jovem a levar a criança para a aula.
No entanto, ao chegar na sala de aula, onde a professora já estava presente, Lorrany foi pressionada a "resolver aquela situação" — referindo-se à presença do filho. A docente então pediu que a jovem se retirasse, alegando que não era de sua "conduta" ministrar aula daquela maneira. Segundo o relato da estudante, a professora teria dito: "Ou você escolhe estudar, ou o seu filho".
Lorrany destacou o constrangimento diante da postura da docente, que orientou a estudante a "enfrentar a realidade", argumentando que ela própria teria deixado a filha de 16 anos em casa para trabalhar. A professora ainda teria pedido que a jovem parasse de chorar, pois isso demonstraria "vitimismo". Após sair da sala, a estudante conta ter questionado a docente se receberia algum tipo de orientação em relação ao conteúdo que perderia, mas a educadora se recusou a ajudá-la a recuperar a aula dada, deixando a aluna ainda mais abalada emocionalmente .
Nas redes sociais, Lorrany afirmou entender que o que passou não é um caso isolado. "Resolvi enfrentar essa luta que não está sendo muito fácil, mas volto a dizer, não irei desistir", escreveu após o episódio se tornar público. Após o ocorrido, ela foi acolhida por colegas e outros professores e fez uma denúncia à ouvidoria da instituição. Segundo a jovem, a diretoria afirmou que "tentaria resolver" a situação.
O Centro Acadêmico de Desenvolvimento Rural classificou a atitude da docente como "injustificável" e emitiu nota de repúdio destacando a realidade de muitas estudantes. "Muitas mães não contam com rede de apoio, não têm com quem deixar seus filhos e não encontram, dentro da própria universidade, qualquer estrutura que as acolha. Mães têm direito à universidade. Exigimos a apuração do caso e uma resposta institucional à altura da gravidade do ocorrido. Estudar não pode ser um privilégio reservado a quem pode abrir mão do cuidado. A universidade precisa caber na vida real".
Lorrany sente medo de voltar a estudar toda vez que lembra do episódio, mas diz se sentir confortável quando vê o carinho que recebe dos colegas. Ela afirma que, apesar de as aulas estarem ocorrendo normalmente, muitos alunos escolheram faltar em apoio à mulher.
A reportagem entrou em contato com a UFPA, mas não obteve retorno até o momento. O espaço permanece aberto para manifestações da universidade e da professora envolvida.
Vale destacar que não existe lei federal que garanta ou impeça a presença de crianças dentro das universidades, cabendo a decisão a cada instituição. No regulamento da UFPA, não há restrições ou permissões específicas sobre o tema. No entanto, a Universidade oferece o Auxílio Primeira Infância, um apoio financeiro mensal para filhos de estudantes com até cinco anos em situação de vulnerabilidade, e possui ao menos uma brinquedoteca no Campus de Altamira para acolher filhos de mães universitárias em horário compatível com as aulas.