“Meu filho queria ser bombeiro, não vai se formar nem me dar um neto”: o desabafo da mãe de Rodrigo, morto por Pedro Turra
Rejane Fleury enterrou o adolescente neste domingo e agora luta pela redução da maioridade penal
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Era noite de sábado. Rejane Fleury entrou no chuveiro, fechou os olhos e deixou a água cair. Sozinha, aos prantos, ela fez algo que nenhuma mãe deveria precisar fazer: entregou o filho a Deus. Horas depois, Rodrigo Castanheira, de 16 anos, partiu.
Foram 16 dias de agonia na UTI do Hospital Brasília, em Águas Claras. Desde a madrugada de 23 de janeiro, quando um soco desferido pelo ex-piloto de Fórmula Delta Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos, fez sua cabeça se chocar violentamente contra a porta de um carro, Rodrigo lutava entre a vida e a morte. O impacto causou traumatismo craniano grave. Ele chegou a ter uma parada cardiorrespiratória de 12 minutos ainda no local. Nunca mais acordou .
Neste domingo (8), familiares e amigos se despediram do adolescente em um velório na Igreja Batista Capital, no Setor de Clubes Sul, em Brasília. O corpo foi levado em cortejo pelo Corpo de Bombeiros até o Cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Cerca de 300 pessoas acompanharam o enterro. Aplaudiram, soltaram balões e assinaram uma bola de futebol — uma última homenagem à paixão do menino que sonhava em ser bombeiro .
Nas redes sociais, Rejane rompeu o silêncio do luto para transformar a dor em bandeira.
"Rodrigo me disse no fim do ano passado que queria ser bombeiro, e eu o chamei para nadar comigo para treinar para o teste de aptidão física! Isso não vai acontecer, assim como ele não vai se formar nem se casar e me dar um neto" , desabafou.
A mãe contou que passou dias à beira do leito, rezando. Até que, sozinha no chuveiro, na sexta à noite, fez a entrega definitiva. "Eu chorei e o entreguei de verdade. Ele se foi no sábado." Em outra publicação, Rejane anunciou sua nova luta: "Minha luta agora será pela redução da maioridade penal para 16 anos. A ida dele não foi em vão" .
Pedro Arthur Turra Basso está preso preventivamente no Complexo Penitenciário da Papuda desde 2 de fevereiro, em cela individual após relatar ameaças . Inicialmente detido em flagrante, ele pagou fiança de R$ 24,3 mil e foi solto em 24 horas — uma decisão que gerou revolta e só foi revertida dias depois, quando a repercussão do caso trouxe à tona um histórico de violência até então ignorado .
Hoje, Turra é investigado em pelo menos quatro ocorrências: a agressão fatal a Rodrigo; uma briga em uma praça de Águas Claras em junho de 2025; a denúncia de que teria forçado uma menor de idade a ingerir bebida alcoólica; e uma agressão contra um homem de 49 anos em uma briga de trânsito .
Entre esses casos, um deles ecoa com especial pesar agora. Em junho de 2025, um jovem de 18 anos foi cercado por cinco homens na mesma região. Levou socos no rosto e nas costelas, além de um "mata-leão". O agressor, segundo o boletim de ocorrência, era Pedro Turra. A vítima registrou queixa, fez tomografias. A família nunca mais foi chamada para depor. O caso tramita como lesão corporal leve .
Nesta semana, a mãe daquele jovem escreveu uma carta aberta a Rodrigo. O desabafo atravessou o país: “se tivessem olhado com atenção para o caso do meu filho, talvez esse outro filho estivesse vivo” .
A polícia, por sua vez, justifica que em casos de menor potencial ofensivo, as vítimas não são chamadas novamente. O delegado Josué Ribeiro afirmou que tentaram localizar Turra à época, mas ele só foi ouvido em janeiro deste ano, quando procurou a delegacia para denunciar ameaças que vinha recebendo .
O tio de Rodrigo, Flávio Henrique Fleury, não tem dúvidas: “Não foi briga. Foi execução” . Ele aponta a desproporção física — Turra tem 1,90m, Rodrigo 1,65m — e a suspeita de premeditação. A polícia investiga se o adolescente teria sido atraído ao local por ciúmes envolvendo a ex-namorada de um amigo do piloto. Se confirmada, a hipótese muda a tipificação do crime: deixa de ser um ato impulsivo e passa a ser tratado como emboscada .
A morte de Rodrigo foi confirmada na manhã de sábado (7) pelo advogado da família, Albert Halex. O Hospital Brasília Águas Claras informou que, “apesar de todos os esforços da equipe médica, o quadro evoluiu para a perda completa e irreversível das funções cerebrais” .
O laudo aponta que os traumas e as cirurgias realizadas no lado esquerdo do crânio de Rodrigo geraram impacto de extrema intensidade .
A defesa de Pedro Turra lamentou o falecimento e afirmou que o piloto está “abatido e entristecido”, lendo uma Bíblia e o livro “Luz nas Grades” na prisão . Mas o advogado da família de Rodrigo é taxativo: “O que aconteceu foi um ataque à própria ideia de humanidade. Quando alguém acredita que pode dispor da vida alheia por puro sadismo ou prepotência, atenta contra todos nós” .
Com a morte do adolescente, o crime pode ser reclassificado de lesão corporal gravíssima para homicídio. A pena máxima prevista sobe para 12 anos. A Justiça agora aguarda o laudo final do Instituto Médico Legal para definir a nova tipificação .
Rodrigo queria ser bombeiro. Gostava de futebol. Tinha 16 anos. Deixou uma mãe que agora pede justiça entre lágrimas, um colégio que o descreve como “marcas de afeto e memórias que permanecerão vivas”.