Donos de academia são indiciados por homicídio doloso após morte de aluna por intoxicação em piscina de SP
Polícia aponta que sócios agiram com "ganância", não prestaram socorro e tentaram apagar provas; funcionário sem treinamento manipulava produtos químicos sob ordens via WhatsApp
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A Polícia Civil de São Paulo indiciou nesta quarta-feira (11) os três sócios da academia C4 Gym, unidade do Parque São Lucas, Zona Leste, por homicídio doloso (quando há assunção do risco de matar) pela morte da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, e pela intoxicação de outras seis pessoas durante uma aula de natação no último sábado (7) .
Os empresários Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof Terração prestaram depoimento na mesma data e agora respondem à acusação formal. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP) , que decidirá sobre o oferecimento da denúncia à Justiça .
No pedido de indiciamento, o delegado Alexandre Bento, titular do 42° DP (São Lucas) , afirma que os sócios foram "displicentes no atendimento às vítimas" e ainda tentaram "dificultar as investigações" .
O documento aponta uma conduta que escancara a frieza dos responsáveis:
- Fuga do local: Imediatamente após o ocorrido, os sócios fecharam a academia e abandonaram o prédio, sem acionar a polícia ou prestar qualquer tipo de auxílio .
- Tentativa de destruir provas: Enquanto Juliana agonizava e era declarada morta em um hospital de Santo André, um dos sócios orientou um funcionário a retornar à empresa para "dissipar os gases e descaracterizar a cena do crime" .
- Omissão de socorro: Os responsáveis sequer ligaram para o Samu ou para os bombeiros. Quem acionou ajuda foi a recepcionista da academia. Uma viatura da Guarda Civil que passava pelo local precisou ser abordada para socorrer as vítimas .
- "Paciência": O manobrista Severino José da Silva tentou contato com o dono Celso por três vezes enquanto os alunos passavam mal. Quando finalmente obteve retorno, às 14h11 do mesmo dia, ouviu apenas a palavra: "Paciência" . No dia seguinte, o proprietário ligou novamente e ordenou: "Sai de casa que a polícia tá batendo na porta de todo mundo" .
A polícia é categórica ao apontar que os sócios assumiram conscientemente o risco de matar ao priorizarem o lucro sobre a segurança .
"Entendendo que os investigados, pelos motivos acima expostos, assumiram o risco do resultado morte, ao dispensarem o auxílio de profissional com habilitação e capacidade técnica, por egoísmo e ganância, visando apenas e tão somente à redução dos custos", escreveu o delegado Alexandre Bento no indiciamento .
A investigação revelou que a manutenção da piscina era feita por Severino José da Silva, 43 anos, funcionário contratado como manobrista, sem qualquer treinamento técnico ou habilitação química, e que nunca recebeu Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) .
Severino afirmou em depoimento que aprendeu o serviço com o antigo manobrista e que seguia ordens por WhatsApp do sócio Celso: mediava a água, fotografava o resultado e enviava ao dono, que determinava quais produtos e quantidades usar .
Na quinta-feira anterior ao incidente, Severino notou que a água da piscina estava turva e comunicou o problema. Na sexta, por ordem do proprietário, aplicou apenas cloro. No sábado, ainda com a água turva e com alunos dentro da piscina, Celso orientou o uso de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60 .
Severino preparou a solução em um balde com água da própria piscina, adicionou seis medidas e deixou o recipiente a cerca de dois metros da borda. Poucos minutos depois, os alunos começaram a sentir forte cheiro químico, ardência nos olhos, tosse, náuseas e vômito .
O caso vitimou sete pessoas, número atualizado nesta quarta (11). São elas :
- Juliana Faustino Bassetto, 27 anos – Professora e pedagoga, pós-graduada em Alfabetização e Letramento. Chegou a ser socorrida ao Hospital Santa Helena, em Santo André, mas sofreu parada cardíaca e morreu. O pai relatou que a médica informou que o produto "queimou ela por dentro" .
- Vinícius de Oliveira, 31 anos – Marido de Juliana. Permanece internado em estado grave na UTI, com insuficiência respiratória .
- Adolescente de 14 anos – Internado em estado grave na UTI com lesões pulmonares .
- Criança de 5 anos – Passou mal durante a aula de natação. Estado de saúde não divulgado .
- Aluna de 29 anos – Internada na UTI com náuseas, vômitos e diarreia .
- Duas outras vítimas – Uma internada em leito comum; outra procurou a polícia nesta quarta para relatar que também passou mal .
Em entrevista à TV Globo, o ex-professor de natação Thygo Araújo, que trabalhou na C4 Gym em 2024, revelou que problemas na piscina já eram recorrentes .
"Já teve alguns momentos que a gente estava dando aula e sentia desconforto na pele, tipo pinicadas, e um cheiro diferente, que dava ardência no nariz e tosse", relatou.
Segundo Araújo, um dos donos mesmo fazia o tratamento da água e, em uma ocasião, "a mistura saiu errada" e foi jogada na piscina infantil. O cheiro forte impediu a permanência no local, e as aulas precisaram ser suspensas por uma semana até a água se restabelecer .
Uma mãe afirmou que o maiô da filha desbotou totalmente após uma aula e o odor era "insuportável" e "meio ácido" . Outra criança desenvolveu crises de tosse e bronquiolite — a família cancelou a matrícula .
A direção da C4 Gym, em nota, alegou que houve reparo na máquina de ozônio à época .
Academia irregular: sem alvará e com dois CNPJs
A unidade foi interditada e lacrada pela Subprefeitura de Vila Prudente e pela Vigilância Sanitária. O auto de interdição aponta "situação precária de segurança" com grave ameaça à integridade física .
As irregularidades são múltiplas :
- Sem Auto de Licença de Funcionamento (alvará);
- Dois CNPJs vinculados à mesma atividade no mesmo endereço ("situação nebulosa", nas palavras do delegado);
- Instalações elétricas precárias, com a fiação da piscina ligada à cozinha;
- Produtos químicos armazenados em local inadequado.
O Ministério Público de São Paulo instaurou inquérito civil para investigar toda a rede de franquias da C4 Gym, diante de indícios de que outras unidades também possam operar sem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) .
Especialistas ouvidos pela imprensa são unânimes: o caso é um manual de como não tratar uma piscina coletiva .
O químico Flávio Vichi, professor da USP, explica que o gás cloro — extremamente tóxico — foi liberado em excesso pela combinação de fatores :
- Produto manipulado por pessoa sem conhecimento técnico;
- Uso excessivo de hipoclorito de sódio ou cálcio;
- Uso excessivo do regulador de pH (ácido clorídrico);
- Piscina aquecida, que acelera a reação;
- Ambiente fechado e sem ventilação.
O resultado: ácido clorídrico e água sanitária nos pulmões das vítimas. "É como se você tivesse água sanitária nos seus pulmões. Isso causa um estrago bastante grande nas mucosas", alerta Bazito, também professor da USP .
Até o momento, a defesa dos sócios não foi localizada para comentar o indiciamento .
A direção da C4 Gym mantém em suas redes a nota oficial de que "prestou imediato atendimento" e "colabora com as autoridades" — versão frontalmente contestada pela polícia com base em depoimentos, imagens e a constatação de que o local foi abandonado e trancado sem acionamento dos órgãos competentes .
O laudo necroscópico de Juliana e os laudos periciais químico e do local ainda não foram concluídos. A polícia aguarda os documentos para consolidar as provas técnicas da acusação .
O caso, agora nas mãos do Ministério Público, pode levar os três sócios a júri popular se a denúncia for recebida pela Justiça.