31 de julho de 2025
PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Cemitério dos Ingleses, no Recife, vira alvo de furtos e vandalismo

Espaço com mais de 200 anos, enfrenta falta de segurança e já teve mais de 60 cruzes levadas

Por Redação
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Cemitério dos Ingleses, patrimônio histórico com mais de dois séculos - Foto: Karol Rodrigues/ DP

O Cemitério dos Ingleses, localizado no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, vem sendo alvo de uma sequência de furtos e atos de vandalismo que colocam em risco um dos patrimônios históricos mais antigos de Pernambuco, fundado em 1814. Somente no furto mais recente, criminosos levaram nove câmeras de monitoramento, quatro refletores de grande porte e parte da fiação elétrica do local.

Segundo o coveiro Marcos Pereira, de 58 anos, que trabalha há quase três décadas no espaço, as invasões acontecem principalmente durante a madrugada e ao amanhecer. “Eles cortam a concertina, pulam o muro, sobem no telhado. Aqui não tem segurança nenhuma”, relata.

De acordo com ele, a cerca elétrica não funciona por falta de bateria e, por se tratar de um patrimônio tombado, parte da estrutura não pode ser alterada para reforçar a proteção. “A gente não pode aumentar o muro nem mudar muita coisa. Aí fica fácil para os ladrões”, diz.

Entre os principais alvos estão cruzes de ferro, câmeras, refletores, fios, placas de mármore e gavetas de alumínio, que são retirados para revenda como sucata. Marcos afirma que apenas em 2023 cerca de 60 cruzes foram furtadas, algumas ainda com identificação dos sepultados.

Em um dos episódios mais graves, houve violação de sepulturas. “Quando cheguei, os ossos estavam espalhados no chão. Isso não tem explicação”, contou.

Segundo o coveiro, a polícia já foi acionada diversas vezes, mas os casos não avançaram. “Disseram que era furto pequeno. A gente fica entregue a quem? Aos ladrões?”, desabafa.

O administrador do cemitério, Ângelo de Souza, explica que o espaço é particular e mantido pela contribuição de cerca de 160 famílias, mas a arrecadação não é suficiente para custear vigilância permanente. “Para manter segurança 24 horas seriam necessários pelo menos dois vigilantes, o que passa de cinco mil reais por mês. A arrecadação mal cobre a manutenção básica”, afirma.

Sem recursos, a única “segurança” durante a noite são dois cães vira-latas, Joly e Spyke, que ficam soltos no local. Ainda assim, segundo Marcos, os criminosos usam pedras, paus e até tijolos para afastar os animais.

Com o aumento da insegurança, famílias têm evitado realizar velórios no espaço. “À noite ninguém quer mais ficar aqui. Todo mundo tem medo”, relata o coveiro.

Patrimônio histórico

Fundado em 1814, o Cemitério dos Ingleses é um dos mais antigos do Recife e um marco da presença britânica em Pernambuco. Criado a partir de uma demanda diplomática do Império Britânico, o local era destinado ao sepultamento de súditos ingleses impedidos de serem enterrados em igrejas católicas por professarem a fé anglicana.

Com arquitetura neogótica e túmulos em ferro fundido, o espaço reflete a influência cultural e tecnológica inglesa no século XIX. Ao longo dos anos, passou a receber sepultamentos de outras nacionalidades e religiões, tornando-se um cemitério de caráter internacional.

Entre os nomes históricos sepultados no local está o general José Inácio de Abreu e Lima. O cemitério é mantido pela comunidade anglicana e segue como um patrimônio pouco conhecido, mas fundamental para a memória histórica e cultural do Recife.