Óculos escuro de Macron em Davos vai além do visual e simboliza tensões geopolíticas em alta
Presidente francês discursou no Fórum Econômico Mundial com acessório para tratar de sangramento ocular, enquanto crítica aos EUA e crise da Groenlândia dominam os debates
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Em meio a críticas veladas aos Estados Unidos e à defesa de um multilateralismo renovado, o presidente francês Emmanuel Macron chamou a atenção por um detalhe incomum em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça: um óculos escuro esportivo, usado sobre um terno tradicional. A escolha estética, no entanto, tem motivo médico: Macron sofre com um sangramento em um vaso do olho direito, condição que o governo francês classificou como "benigna" e sem riscos.
Para além do visual, o acessório acabou se tornando um símbolo involuntário do momento de tensão geopolítica aguda que dominou o fórum. Em seu pronunciamento, Macron defendeu que as estruturas de governança global estão sendo enfraquecidas e acusou os EUA de buscar "concessões máximas" visando "enfraquecer e subordinar a Europa". Ele também criticou a "enorme capacidade ociosa" da China e as "práticas distorcidas" do país.
"A solução passa por mais cooperação e pela criação de uma maior soberania econômica e estratégica, especialmente para os europeus", afirmou Macron, defendendo uma postura entre a "vassalização" perante a "lei do mais forte" e um "multilateralismo eficaz".
O pano de fundo do discurso é a crescente crise em torno da Groenlândia, território autônomo dinamarquês rico em recursos e de importância estratégica no Ártico. O ex-presidente americano Donald Trump tem pressionado para aumentar a influência dos EUA na região, chegando a ameaçar tarifas punitivas contra países europeus e a relacionar a tensão à sua frustração por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.
Em resposta, a União Europeia se mobiliza. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou em Davos um "aumento maciço" nos investimentos europeus em infraestrutura na Groenlândia e uma cooperação em segurança no Ártico com os EUA, ainda que tenha criticado as "novas tarifas propostas" como "um erro".
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, alertou que o pior da tensão "está por vir" e defendeu que soberania e democracia "não são negociáveis". Ela afirmou que a Europa retaliaria no caso de uma guerra comercial.
A escalada levou à convocação de uma reunião de emergência dos líderes europeus para esta quinta-feira (22), em Bruxelas. O clima foi aquecido pelo vazamento, feito pelo próprio Trump em suas redes sociais, de capturas de tela de uma conversa privada com Macron. Nas mensagens, o presidente francês diz não entender a posição americana sobre a Groenlândia e se oferece para mediar um diálogo.
O Brasil esteve representado no fórum pela ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, enquanto o cenário geopolítico segue dominado pelo embate entre a visão multilateral europeia e a postura unilateralista ressurgente, personificada na tensão entre Macron (e seus óculos) e as sombras do conflito no Ártico.