Tarifas de Trump sobre Groenlândia podem acelerar acordo Mercosul-UE, dizem analistas
Pressão comercial dos EUA empurra Europa para novos parceiros; risco agora é judicialização no Parlamento Europeu, que vota envio do tratado à Corte nesta quarta (21)
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As novas tarifas impostas pelo governo Trump a países europeus contrários à anexação da Groenlândia podem ter um efeito colateral geopolítico relevante: acelerar a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Analistas avaliam que a escalada protecionista dos EUA empurra a Europa para a busca por parceiros alternativos, dando impulso estratégico a um tratado que enfrentava resistências históricas, especialmente no setor agrícola europeu.
Para o professor de Relações Internacionais da ESPM Leonardo Trevisan, a conexão é direta: “As tarifas de até 25% vão brecar a saída de produtos europeus para os Estados Unidos, e eles precisam de outros mercados. Nesse caso, o acordo Mercosul-UE ganha uma força inédita”. A América Latina surge, assim, como destino natural para a diversificação comercial europeia.
No entanto, o caminho ainda é cheio de obstáculos. Nesta quarta-feira (21), o Parlamento Europeu vota o envio do acordo à Corte de Justiça da UE – uma manobra jurídica que, se aprovada, pode atrasar a ratificação em 12 a 18 meses. A medida é apoiada principalmente por parlamentares franceses e poloneses preocupados com a concorrência agropecuária.
Carlos Primo Braga, ex-diretor do Banco Mundial, ressalta que, apesar do cenário geopolítico favorável, “ainda temos pedregulhos no caminho”. A boa notícia é que, após ajustes políticos, não há mais os 35% da população europeia necessários para bloquear o acordo no Conselho da UE.
A crise com a Groenlândia – que levou a primeira-ministra dinamarquesa a declarar que uma invasão significaria “o fim da Otan” – reforça a necessidade de a Europa reduzir sua dependência estratégica dos EUA. Nesse contexto, o acordo Mercosul-UE deixa de ser apenas uma oportunidade comercial para se tornar um instrumento de reequilíbrio geopolítico.
Para o Brasil e o Mercosul, o momento representa uma janela única para se consolidar como parceiro confiável em um mundo cada vez mais fragmentado. Ironia ou não, a guerra tarifária de Trump pode acabar beneficiando justamente o pacto que ele tanto criticou.