31 de julho de 2025
TECNOLOGIA

Venda forçada do TikTok nos EUA se concretiza e acende alerta sobre soberania digital global

Oracle e fundo árabe assumem controle da plataforma por US$ 14 bilhões em negócio sob pressão de Washington; especialistas veem precedente geopolítico para regulação de redes sociais

Por Redação
Publicado em
App do TikTok - Foto: Antonbe/ Pixabay

A venda forçada das operações do TikTok nos Estados Unidos deve ser finalizada nesta quinta-feira (22), em um dos maiores e mais politizados negócios do setor tech. A transação, estimada em US$ 14 bilhões, transfere o controle da plataforma — que tem cerca de 170 milhões de usuários americanos — de sua matriz chinesa, a ByteDance, para um consórcio liderado pela empresa de software Oracle e pelo fundo soberano MGX, dos Emirados Árabes Unidos. O governo chinês mantém 20% de participação.

O acordo é resultado de anos de pressão do governo dos EUA, que durante o primeiro mandato de Donald Trump iniciou uma campanha contra o app, alegando riscos à segurança nacional. A justificativa era de que os dados dos usuários americanos poderiam ser acessados pelo governo da China, acusação consistentemente negada pela ByteDance. A aquisição foi tratada por Pequim como uma concessão para manter as relações comerciais, mas especialistas a veem como um precedente perigoso.

"Temos um paradoxo: os EUA, sob a bandeira do neoliberalismo, usam a segurança nacional para controlar os dados de sua população. Isso afeta o livre mercado e também a liberdade de expressão, já que houve a ameaça real de banir a plataforma", avalia Andressa Michelotti, pesquisadora da UFMG e da Universidade de Utrecht, especialista em regulação.

Na prática, o poder de decisão e a gestão dos dados saem das mãos chinesas. A Oracle assumirá o gerenciamento dos servidores e da infraestrutura de dados nos EUA. A operação foi articulada por Larry Ellison, cofundador da Oracle e conhecido como "brolygarch" — termo para bilionários alinhados com governantes. Trump tem se cercado de figuras semelhantes, como Elon Musk e Mark Zuckerberg.

No entanto, as implicações técnicas são profundas e ainda incertas. Não se trata apenas de migrar servidores, mas de potencialmente criar um aplicativo à parte para o mercado americano. Especialistas questionam como ficará a interoperabilidade com as versões do TikTok em outros países, como Brasil e nações europeias, e como será feita a transição dos bilhões de dados dos usuários.

"Pode ser que o TikTok americano se torne uma empresa completamente diferente, com outro design e outras políticas. Isso vai influenciar outras plataformas também. Não é só mudar uma chave algorítmica", pondera Michelotti. Uma "balcanização" da internet, com plataformas isoladas por países, é um dos cenários possíveis.

A ByteDance garante que a venda da operação norte-americana não impactará a experiência dos usuários no Brasil, onde o app também é gigante. A empresa está, na verdade, em expansão no país, com a construção do que promete ser o maior data center da América Latina, em Caucaia (CE), um investimento de cerca de R$ 200 bilhões.

Para Rafael Evangelista, professor da Unicamp e conselheiro do CGI.br, o caso é uma lição para o debate regulatório brasileiro. "Plataformas digitais são relevantes demais para funcionarem apenas sob a lógica do mercado. Onde essas empresas estão sediadas, a quem respondem e quais interesses geopolíticos representam são fatores cruciais", afirma.

Ele defende que a discussão no Brasil deve passar por soberania tecnológica e por um diálogo mais estruturado entre Estado e empresas que controlam infraestruturas de comunicação. O Congresso já deu passos nessa direção com a Lei do ECA Digital (15.211/2025), e aguarda a votação do Projeto de Lei de Concorrência Digital (PL 4675/2025), que pode dar mais poderes ao Cade para regular o setor.

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