Após captura de Maduro, incerteza: Venezuela tem ou não prazo para convocar novas eleições?
Brasil reconhece vice Delcy Rodríguez como presidente interina, mas Justiça venezuelana, alinhada ao chavismo, não estabelece limite para convocação de pleito, gerando debate constitucional e incerteza política
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A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro desencadeou um imbróglio constitucional que define os próximos passos do país. Enquanto nações como o Brasil já reconheceram a vice-presidente Delcy Rodríguez como a comandante interina, uma questão central permanece sem resposta oficial: quando a Venezuela deve convocar novas eleições?
A Constituição venezuelana prevê dois cenários distintos. O artigo 233 estabelece que, em caso de "ausência absoluta" do presidente, o vice assume e deve convocar eleições em 30 dias. Já o artigo 234 trata da "falta temporária", que permite ao vice governar por 90 dias (prorrogáveis por mais 90 pela Assembleia Nacional) antes de convocar um pleito. Após 180 dias, decide-se se a ausência se tornou absoluta.
O cerne do impasse está na qualificação jurídica do que ocorreu com Maduro. O Tribunal Superior de Justiça, alinhado ao chavismo, decidiu que sua captura configura uma "impossibilidade material e temporária" devido a uma situação excepcional não prevista na Constituição. Portanto, segundo a corte, não se enquadra nem como falta temporária nem como ausência absoluta. Essa interpretação não estabelece qualquer prazo para a convocação de eleições ou para o limite do governo interino de Delcy Rodríguez.
Especialistas e opositores veem na decisão uma manobra política para driblar a Carta Magna, permitindo que Rodríguez, apoiada pelos militares, permaneça no poder indefinidamente sem a necessidade de um mandato eletivo. A medida consolida o controle do regime chavista sobre o Executivo em um momento de extrema fragilidade.
Enquanto isso, o cenário internacional é dividido. O Brasil, através da chanceler interina Maria Laura da Rocha, formalizou o reconheci-mento de Delcy Rodríguez como presidente interina, seguindo uma interpretação literal da linha sucessória. Do outro lado, os Estados Unidos, sob o comando de Donald Trump, adotam um tom mais intervencionista. Trump afirmou que os EUA "vão administrar o país até que haja uma transição justa" e revelou que seu secretário de Estado, Marco Rubio, já conversou com Rodríguez, que estaria disposta a cooperar com Washington.
O futuro imediato da Venezuela, portanto, pende entre a incerteza constitucional domesticamente e a disputa de influência internacional. A falta de um prazo claro para as eleições alimenta a instabilidade e adia a possibilidade de uma solução democrática para a profunda crise que assola o país.