Geopolítica do petróleo em choque: após captura de Maduro, Trump mira maior reserva do mundo
Venezuela, com 300 bilhões de barris, vê produção em colapso, enquanto sanções e tensões afetam mercados e podem influenciar preços e rotas logísticas no Atlântico Sul
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A indústria petrolífera global está no centro de uma nova e dramática movimentação geopolítica. Após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou a intenção de abrir o setor petrolífero da Venezuela à atuação de grandes companhias norte-americanas. A declaração, feita no último sábado (3), vai além da justificativa anterior de combate ao narcotráfico e expõe claramente os interesses energéticos no cerne da estratégia de Washington.
O alvo é colossal: a Venezuela detém cerca de 17% das reservas comprovadas de petróleo do mundo, totalizando mais de 300 bilhões de barris – um volume quase quatro vezes maior que o dos Estados Unidos. Esta riqueza, no entanto, convive com uma realidade de infraestrutura degradada e produção em queda histórica. O controle sobre essas reservas e a futura reorganização do setor são peças-chave nos desdobramentos econômicos e geopolíticos que afetam toda a região das Américas.
A dimensão do mercado petrolífero venezuelano é monumental, mas subaproveitada. Segundo a Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA), o país possui a maior reserva do planeta, à frente de Arábia Saudita e Irã. Contudo, a produção despencou de um pico de 3,7 milhões de barris por dia na década de 1970 para cerca de 1 milhão atualmente, menos de 1% da produção global. A combinação de má gestão, falta de investimentos, sanções internacionais e a natureza do petróleo extrapesado criou um paradoxo: uma potência de recursos que vive uma severa crise econômica.
A dependência do petróleo moldou a Venezuela ao longo do século XX, culminando na nacionalização do setor em 1976 e na criação da estatal PDVSA. A renda petrolífera, porém, não foi diversificada, tornando o país extremamente vulnerável às flutuações do mercado. As sanções impostas pelos EUA, principalmente a partir de 2019, estrangularam ainda mais a economia. Um estudo estima que essas sanções causaram perdas de cerca de US$ 226 bilhões em receitas petrolíferas ao país entre 2017 e 2024 – valor mais que o dobro do PIB venezuelano atual.
A geopolítica do petróleo venezuelano tem um capítulo crucial nas relações com os EUA e a China. Tradicionalmente, refinarias americanas eram as principais processadoras do cru venezuelano. Com as sanções, Caracas voltou-se para Pequim, estabelecendo acordos de petróleo por empréstimos. A recente declaração de Trump e medidas como o bloqueio naval anunciado contra embarcações que entram ou saem da Venezuela paralisaram parte das exportações, deixando inclusive gigantescos superpetroleiros à espera de instruções. Essa disputa por influência e recursos ocorre nas águas do Caribe e do Atlântico Sul, região de importância logística para o comércio exterior.
Apesar da crise, o petróleo segue sendo o pilar da frágil recuperação venezuelana. Dados de 2024 mostram que as exportações de hidrocarbonetos renderam US$ 17,5 bilhões à PDVSA, com mais da metade destinada ao Tesouro nacional. O setor foi o principal motor do crescimento do PIB em 2025. Essa recuperação, porém, é incerta e está atrelada à resolução do imbróglio político e às tensões internacionais.