Epidemia de feminicídio no Brasil bate recorde e expõe raízes históricas de violência contra a mulher
m artigo, historiadora da UFBA resgata casos do século XIX e mostra como teses como "legítima defesa da honra" perduram
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O Brasil registrou em 2024 o maior número de feminicídios desde 2015, quando o crime foi tipificado: 1.492 mulheres foram assassinadas por razões de gênero. Os dados alarmantes são acompanhados por uma análise histórica publicada com exclusividade no jornal O Globo pela historiadora Patrícia Valim, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o jornalista Ruan de Sousa Gabriel, que traça a continuidade entre os crimes do passado e os de hoje.
Em séculos anteriores, assassinos de mulheres eram absolvidos com base em argumentos como “legítima defesa da honra” e “loucura momentânea” – teses que, embora declaradas inconstitucionais pelo STF em 2023, ainda ecoam na sociedade. Valim resgata o caso de Júlia Clara Fetal, morta a tiros pelo ex-noivo em Salvador em 1847, cujo assassino foi condenado a apenas 12 anos de prisão após a defesa alegar “perda momentânea da razão”.
Números atuais alarmantes
- São Paulo: aumento de 10% nos feminicídios em 2024; capital registrou 53 casos, maior número da série histórica.
- Rio de Janeiro: denúncias de assédio virtual cresceram 5.000% na última década.
- Brasil: feminicídios em vias públicas quase dobraram de 2024 para 2025.
Para Valim, a violência contra a mulher é constitutiva da história brasileira, arraigada na exploração colonial, no trabalho escravo e no controle dos corpos femininos. “As mulheres que resistiram às violências e moldaram nossa sociedade foram agredidas, mutiladas e mortas”, afirma.
A historiadora defende que recordar essas histórias – como a de Júlia – é uma forma de desafiar a reprodução do feminicídio e combater o apagamento sistemático das trajetórias femininas. Neste domingo, o Levante Mulheres Vivas promoveu manifestações em todo o país para exigir um basta à violência de gênero.
O artigo reforça que a “epidemia” atual não é um ponto fora da curva, mas o reflexo de séculos de cultura misógina – agora potencializada pelas redes sociais, que radicalizam o ódio e transformam a violência em conteúdo rentável. A luta, portanto, exige mudanças estruturais que vão além da tipificação legal.