“A velhice não é o fim”: viver bem na terceira idade pede atenção à mente e ao corpo
Atenção à qualidade de vida é fundamental para prevenir riscos e garantir bem-estar em pessoas idosas
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Neste 1º de outubro, Dia Nacional do Idoso, o Brasil celebra também os 22 anos do Estatuto da Pessoa Idosa, reforçando a importância de garantir direitos básicos, como saúde, transporte, cultura e proteção contra violência, mas também de dar atenção especial à saúde mental da população idosa, ainda negligenciada em muitos contextos.
Entre 2010 e 2019, foram registradas 112.230 mortes por suicídio no país. Entre pessoas com 60 anos ou mais, a taxa passou de 6,8 para 7,8 por 100 mil habitantes.
Em Alagoas, um estudo da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) identificou 160 óbitos de idosos por suicídio no mesmo período, evidenciando a urgência de políticas públicas específicas.
O Governo de Alagoas mantém uma rede de serviços voltados à saúde mental que também beneficia a população idosa. O Alô Saúde Mental oferece atendimento remoto e acompanha idosos em Instituições de Longa Permanência. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), e o Sistema Unificado de Acompanhamento (SUAPS) foi implantado para integrar informações de pacientes. Outras ações como a Caravana da Saúde Mental e o projeto “Nise em Cores e Formas”, que utilizam atividades culturais para estimular inclusão social. Essas iniciativas fazem parte da Política Estadual de Saúde do Idoso, que prevê atenção integral pelo do Sistema Único de Saúde (SUS).
Diante desses números alarmantes, especialistas alertam que a atenção à saúde mental na terceira idade ainda é tabu, e que fatores como isolamento, perdas familiares e mudanças no cotidiano podem agravar quadros de ansiedade e depressão. É nesse cenário que a presença da família e o acompanhamento psicológico se tornam fundamentais.
Combate ao Isolamento: O papel da família na vida do idoso
A psicóloga e psicoterapeuta Mariana Verçosa destaca que os sintomas de depressão e ansiedade em idosos muitas vezes são confundidos com mudanças naturais do envelhecimento, como alterações no sono, apetite e níveis de energia.
“Sintomas depressivos e ansiosos na terceira idade podem se confundir com mudanças naturais do envelhecimento”, explica.
Mariana reforça que a saúde mental nessa fase da vida é influenciada por diversos fatores, como o histórico de vida, o nível de funcionalidade e o estigma ainda presente em torno da busca por apoio psicológico.
“O incentivo da família é essencial. Muitos ainda veem a busca por ajuda como fraqueza, o que dificulta o início do cuidado, o isolamento é combatido com atenção, conversa e interação social”, completa.
História de superação e cuidado humanizado
Essa atenção e acompanhamento fazem diferença na vida real dos idosos, como mostra a história de seu Álvaro Afonso, de 66 anos. Após sofrer cinco AVCs consecutivos, ele ficou sem andar e falar, sendo encaminhado para a Cidade da Pessoa Idosa, instituição de longa permanência da Prefeitura de Maceió

Com fisioterapia, fonoaudiologia e cuidados médicos, seu Álvaro foi gradualmente recuperando mobilidade, já arrisca alguns passos, ganhou peso e, principalmente, participa das atividades da instituição e conquistou amigos.
Cidade da Pessoa Idosa
Inaugurada em 1º de novembro de 2024, a Cidade da Pessoa Idosa atende atualmente 18 idosos, mas comporta até 35 idosos, com leitos adaptados e espaços para cuidados especiais.
O acolhimento é destinado a idosos com vínculos familiares rompidos ou fragilizados, vítimas de violência ou negligência e em risco social, com encaminhamentos do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Ministério Público, hospitais, serviços de abordagem social ou demandas espontâneas de famílias. Todos passam por triagem médica e social antes da admissão, e a instituição conta com equipe multidisciplinar e assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas e enfermeiros, que elaboram planos de atendimento individualizados, incluindo nutrição e fortalecimento de vínculos familiares.
A instituição também aposta na convivência social e resgate cultural. Mensalmente, são promovidas atividades culturais, trabalhos manuais e dinâmicas em parceria com Cras, universidades, grupos de artesãos e músicos, fortalecendo laços e incentivando habilidades cognitivas e psicomotoras.
De acordo com a assistente social e coordenadora geral da instituição, Djani Pacheco, o trabalho vai além do acolhimento físico. Ela observa que muitos idosos chegam com marcas de violência, abandono ou negligência, o que impacta diretamente sua saúde mental.
“Nós temos uma visão de que a velhice não é o fim. Trabalhamos justamente para resgatar autoestima, sonhos, planos e projetos de vida, muitos chegam em conflito, após violência praticada por familiares ou perda de entes queridos. Nosso trabalho é ouvir essas histórias e criar um novo vínculo de pertencimento.” disse Djani.
Com quase 30 anos dedicados à causa da pessoa idosa, reforça que a missão é garantir direitos e devolver identidade a quem perdeu vínculos ou documentação básica, além de resgatar a valorização do idoso na sociedade.

Coordenadora geral do espaço, Djani Pacheco. Foto: Secom Maceió
“Se antes o idoso era visto como guardião da sabedoria, hoje há negligência, inclusive no mercado de trabalho. Precisamos trazê-lo de volta ao convívio social, respeitando sua experiência de vida.” conclui

O acompanhamento de saúde é contínuo. Toda segunda-feira, a Secretaria de Saúde disponibiliza equipe médica e de enfermagem pelo programa Saúde da Gente, e residentes que necessitam de cirurgias são encaminhados com prioridade a hospitais como o Hospital Geral do Estado (HGE) ou para o hospital de Coruripe, tendo como referência as UPAs do Trapiche e Jaraguá, caso necessitem de atendimentos específicos.
União e sociabilidade no Sesc Alagoas
O Trabalho Social com Grupos (TSG) é um projeto da Assistência Social do Sesc Alagoas, voltado para pessoas idosas a partir de 60 anos, cujo objetivo central é promover envelhecimento ativo, inclusão social, qualidade de vida, além de fortalecer identidades e estimular o autocuidado.
Atualmente, o TSG promove atividades para cerca de 550 idosos nas unidades do Poço, em Maceió, e de Arapiraca. A programação inclui palestras, oficinas e ações culturais que incentivam uma rotina ativa e saudável, favorecendo tanto a saúde física quanto a mental. As vagas são abertas por edital, no site do Sesc, de forma gratuita, a participação regular é requisito para permanência no programa.
A assistente social do Sesc Poço, em Maceió, Luciana Figueredo destaca que as oficinas oferecidas, como argila, pintura, dança, karatê e encontros em grupo, têm sido fundamentais para a qualidade de vida dos participantes.
Segundo Luciana o perfil das atividades mudou ao longo do tempo. “Antes, as oficinas eram mais manuais, voltadas para artesanato. Hoje eles querem dançar, desenvolver outras habilidades e participar das aulas de karatê. É um envelhecimento diferente do de dez anos atrás.”
Com 11 anos de experiência trabalhando diretamente com grupos de idosos, Luciana, como integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa, reforça a importância de garantir direitos e combater discriminação. “É um trabalho complexo e gratificante. Lidamos com diferentes formas de envelhecer, sempre buscando o bem-estar, a qualidade de vida e o envelhecimento ativo”, afirma
Força e inspiração: Dona Carminha encontra no karatê um novo sentido para a vida
Dona Carminha Souza, 67 anos, participa de aulas de karatê há um ano e conta como a prática transformou sua rotina e bem-estar. “O karatê trabalha a mente, o respeito, a concentração e o convívio em grupo. É muito bom!”, afirma, com sorriso contagiante. Para ela, a convivência social é essencial em qualquer idade. “Pense numa pessoa que só pensa positivo: sou eu! Vamos nos unir para que coisas melhores aconteçam, porque todos envelhecem e precisamos pensar no nosso amanhã”, declara.
O professor de karatê do Sesc, Alexandre Souza, destaca que a continuidade das aulas com idosos traz resultados expressivos, beneficiando corpo, mente e promovendo cooperação e motivação entre os alunos.
“Percebemos ganhos cognitivos, físicos e na autoestima. A prática esportiva gera animação, confiança e uma competição saudável, em que todos se incentivam a evoluir”, conta Alexandre.

O programa realiza campanhas de conscientização, como a do Dia Mundial de Enfrentamento da Violência contra a Pessoa Idosa, e encontros voltados à saúde mental e à promoção da cidadania.
Parte das vagas é destinada a idosos de baixa renda, dentro do Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG) do Sesc, que garante acesso gratuito ou subsidiado às atividades.
Censo 2022 IBGE
De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, cerca de 15,6% da população. Entre os que têm 65 anos ou mais, são 22,1 milhões, ou 11% do total. Projeções indicam que, já em 2025, os idosos representarão 16% da população nacional, número que deve dobrar até 2050, ultrapassando 60 milhões de pessoas.
Estatuto da Pessoa Idosa
De acordo com o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/2003), toda pessoa com 60 anos ou mais tem direito à vida digna, saúde, alimentação, educação, cultura, lazer, trabalho, previdência social, transporte, moradia, convivência familiar e comunitária, além de proteção contra qualquer forma de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão.
A lei também garante prioridade no atendimento em serviços públicos e privados, assegurando que os idosos tenham acesso facilitado a políticas sociais e de saúde, promovendo sua autonomia, bem-estar e inclusão social.
Onde procurar ajuda: saúde mental em Maceió
O município de Maceió possui uma rede de atendimento psicossocial, composta por profissionais que atuam em Unidades de Saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, com o intuito de oferecer os cuidados necessários com a saúde mental para tratar de doenças como ansiedade, depressão, estresse e síndrome do pânico, por exemplo.
Confira aqui locais de atendimento de saúde mental em Maceió.
Além do município de Maceió, é possível buscar ajuda pelo. CVV – Centro de Valorização da Vida: ligue 188 (atendimento gratuito e 24h) ou acesse www.cvv.org.br.
No Dia Nacional do Idoso, a mensagem é clara: além de direitos básicos, é fundamental investir em políticas de saúde mental e social, garantir acolhimento digno e fortalecer a presença, o afeto e a valorização da experiência de vida na terceira idade.