O governo brasileiro segue empenhado em estabelecer canais de diálogo com as autoridades dos Estados Unidos, mesmo diante da postura resistente adotada pela gestão do ex-presidente Donald Trump. A principal meta é suavizar os impactos das tarifas impostas, com tentativas de excluir mais setores da lista de produtos sobretaxados. Para isso, estão em curso articulações conduzidas pelo Itamaraty, os ministérios da Fazenda, Indústria e Comércio e Agricultura, com o apoio do setor empresarial. A coordenação dessas iniciativas está a cargo do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou que se reunirá com o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, na próxima semana. A expectativa do Palácio do Planalto é que esse encontro sirva como ponto de partida para um novo canal de diálogo entre os dois governos, diante das tensões comerciais recentes. No entanto, o presidente Lula não deverá, por ora, tentar uma conversa direta com Trump. A avaliação interna é que as tarifas têm motivação política, com o objetivo de beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e interferir em decisões democráticas e judiciais brasileiras, como as do STF sobre o ex-presidente e as big techs. Um encontro entre os dois líderes, portanto, só ocorreria se Trump recuasse nessa postura — o que é considerado improvável.
Diante da resistência americana, o governo brasileiro também avança em uma segunda frente: a mitigação dos efeitos internos das tarifas. Desde a imposição da sobretaxa de 40% em julho, seguida pela formalização do novo regime tarifário por ordem executiva, técnicos do governo vêm mapeando os setores mais afetados. Entre as medidas estudadas estão incentivos para exportações destinadas a outros mercados, apoio financeiro emergencial, flexibilização de tributos internos e até a criação de estoques reguladores temporários para produtos que perderam competitividade no mercado norte-americano. A lista de medidas já foi apresentada ao presidente Lula, que começa a ser pressionado por empresários pela demora nas decisões.
Apesar da gravidade da situação, integrantes do governo enxergam a crise como uma oportunidade para reestruturar a política de comércio exterior brasileira. Uma das propostas em análise é a criação de novas linhas de financiamento para exportações — embora esse ponto enfrente resistência no Congresso e em segmentos do setor produtivo.
Paralelamente, o Brasil aposta na terceira frente de ação: a diversificação de mercados e parceiros comerciais. Essa estratégia, iniciada ainda nos anos 2000, ganhou novo fôlego no terceiro mandato de Lula. Desde então, o presidente tem visitado diversos países com foco em ampliar o alcance do comércio exterior. Entre os esforços estão as negociações do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, além de encontros bilaterais com nações estratégicas como Japão, Vietnã, China — que recebeu visita de Estado de Xi Jinping — e os demais países do Brics.
Na última quinta-feira (7), Lula conversou por telefone com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, destacando o potencial de expansão das trocas comerciais com o país asiático. O presidente brasileiro também planeja visitar a Indonésia ainda este ano e participar de uma cúpula da ASEAN, na Malásia. O governo reconhece que, apesar do potencial, esses mercados levam tempo para se consolidarem como alternativas viáveis aos EUA. Por isso, a diversificação não visa substituir de imediato os norte-americanos como destino das exportações, mas sim tornar a economia brasileira mais resiliente a choques externos.
A quarta e última frente é mais sensível: a possibilidade de retaliação comercial. Embora ainda não tenha sido acionada, essa alternativa está em estudo pelo governo. Equipes técnicas já avaliam mecanismos de reciprocidade caso as negociações com os EUA não avancem ou caso Trump imponha novas barreiras. A medida depende de uma análise jurídica rigorosa, para que qualquer resposta brasileira respeite os acordos internacionais. No entanto, o Executivo já conta com o respaldo do Congresso Nacional, que aprovou recentemente a lei de reciprocidade comercial.
“Não se trata de revanche. É reciprocidade. Estamos analisando cuidadosamente em quais setores e produtos poderíamos responder com proporcionalidade, respeitando o princípio da legalidade internacional”, afirmou uma fonte do governo envolvida nas negociações.
Foto: Brendan SMIALOWSKI / AFP