Áudios revelam delegado orientando registro falso de apreensão; investigação aponta desvio de drogas
Conversas obtidas pela investigação indicam tentativa de alterar data e circunstâncias de apreensão. Polícia apura esquema que teria desviado mais de 100 quilos de drogas e movimentado cerca de R$ 10 milhões em quatro anos
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Áudios obtidos durante as investigações da Operação Perfídus mostram o delegado Braz Morroni, preso temporariamente pela Polícia Civil da Paraíba, orientando um escrivão a confeccionar um boletim de ocorrência com informações que, segundo a investigação, não correspondiam aos fatos de uma apreensão de drogas realizada em João Pessoa.
Conforme o material analisado pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o delegado teria determinado que o registro fosse elaborado dias após a apreensão e com data diferente da operação original. A investigação também aponta divergências entre a quantidade de entorpecentes efetivamente encontrada e o volume oficialmente registrado.
Nos áudios, Braz Morroni conversa com um escrivão identificado como "Quinze" e informa que dois investigadores levariam a droga à delegacia apenas dias depois da apreensão para que fosse formalizado o procedimento. Durante a conversa, ele orienta o preenchimento da documentação e cita informações que deveriam constar no registro oficial.
Além das gravações, a perícia recuperou fotografias apagadas do celular do delegado que, segundo a polícia, o colocam no imóvel onde os entorpecentes estavam armazenados na data da apreensão. As imagens possuem registro de data, horário e geolocalização. Para os investigadores, o material, somado aos dados de GPS da viatura e outros elementos, indica a participação direta do delegado na retirada da droga antes da formalização do procedimento policial.
Diferença entre droga apreendida e registrada
Outro ponto destacado pela investigação é a discrepância entre a quantidade de drogas informada no boletim de ocorrência e a que teria sido encontrada no local.
Enquanto o registro oficial menciona a apreensão de cerca de 1,5 quilo de entorpecentes, a Draco afirma que os elementos reunidos indicam um volume superior a 100 quilos. A estimativa foi baseada na quantidade de pacotes identificados nas fotografias e no padrão utilizado por organizações criminosas para armazenar drogas.
Esquema investigado
As investigações tiveram início em fevereiro de 2025, após a denúncia de um traficante que afirmou que drogas apreendidas pela Polícia Civil estavam sendo desviadas. Ao longo de aproximadamente 15 meses, a Draco reuniu indícios de que agentes públicos e integrantes de organizações criminosas atuavam em conjunto para retirar drogas de apreensões oficiais e revendê-las a traficantes.
Segundo a Polícia Civil, o grupo teria movimentado cerca de R$ 10 milhões com a venda dos entorpecentes desviados ao longo de quatro anos. Durante a Operação Perfídus, a Justiça expediu nove mandados de prisão, dos quais oito foram cumpridos, além de 24 mandados de busca e apreensão e do bloqueio de bens dos investigados.
Delegado é apontado como beneficiário do esquema
Na decisão judicial que autorizou as prisões, Braz Morroni é apontado como um dos integrantes da estrutura criminosa. Conforme a investigação, ele teria utilizado a posição de delegado para dar suporte ao esquema, além de receber parte dos lucros obtidos com a comercialização das drogas desviadas.
Os autos também mencionam movimentações financeiras, transferências bancárias entre investigados e conversas interceptadas que, segundo a Polícia Civil, reforçam a suspeita de que o delegado participava da divisão dos recursos provenientes da atividade criminosa.
Após audiência de custódia, a Justiça manteve a prisão temporária de Braz Morroni, que foi encaminhado ao Presídio Especial do Valentina, em João Pessoa. A defesa do delegado informou que irá analisar o processo e sustenta que ele deve ser considerado inocente até o julgamento definitivo.